O amor sem nome nos dias sem perdão

Aos Nossos Pais, peça de Laura Castro, expõe novas formas de composição familiar nos dias atuais

JEFFERSON DEL RIOS , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2013 | 02h10

Homossexualismo, o amor que não ousava dizer seu nome, segundo Oscar Wilde, um homem do século 19, começa a ser reconhecido no Ocidente. A questão é ainda ou apenas de direitos civis, o que representa um avanço, mas o anátema cultural continua e as perplexidades humanas que gera não estão resolvidas. Este é o tema de Aos Nossos Filhos, de Laura Castro. Aqui, uma jovem lésbica comunica à mãe que vai ser mãe. Ou seja, a sua parceira está gravida por inseminação artificial. A senhora que sabia da vida amorosa e sexual da filha, e fizera o possível para se adaptar ao fato consumado, desta vez rebela-se e parte para o debate aberto. Diz que ser politicamente correto nem sempre é o correto, porque pode ser falso e covarde, e inicia uma sequência de perguntas nada preconceituosas e bastante contundentes. Questões elementares sobre a prática sexual de duas mulheres: quem é o marido ou o que significa ser o marido ou a mulher. Em seguida, monta os ambientes em que a futura criança viverá: como ela explicará que tem duas mães e nenhum pai, como será vista em uma época de crescente bullying. A mãe vai além: se a filha tem amigos homens, é tão impossível ter o filho de algum deles, que até estariam dispostos a colaborar? Por outro lado, se o doador é desconhecido, o que fazer se a criança quiser um dia conhecê-lo? E mais: se a filha quer mesmo ser mãe, por que não engravidou ela e sim a companheira?

É a hora em que fica inútil tergiversar citando os gregos e romanos da antiguidade porque são civilizações extintas ou refeitas pela cultura judaico-cristã há milênios. A peça deixa de lado o panfletarismo para se concentrar nas relações da família em fase de transição, ou melhor, no próprio conceito de família heterossexual por vínculos de sangue. Corre paralelo a esta trama o histórico da futura avó, que foi de esquerda e viveu anos de exilio, ora por necessidade de escapar à ditadura brasileira, depois para ajudar povos da África. Nesta altura, a peça adquire um viés psicológico e insinua que o lesbianismo seria possível fruto desta gente denodada que não teve tempo para os próprios filhos. Os pregadores do futuro melhor não tiveram tempo para se amar bem. Marxismo pode ser praticado por maus pais? Boa questão. A senhora casou-se três vezes, tendo sido uma mãe ausente. Sua atitude resvala para a da burguesa engajada de Os Convalescentes, de José Vicente de Paula (1970). O problema é que soa assunto de outra peça. A superposição de contradições nesta narrativa atravanca o essencial da linha dramática. Vira um jogo de quebra-cabeça saber qual dos maridos teve mais méritos e quem é mesmo o pai da jovem.

O espetáculo conciso e tenso de João das Neves proporciona uma excepcional demonstração do talento de Maria de Medeiros, que une a técnica mais calculada à emoção absoluta. Atriz portuguesa com trânsito artístico internacional e em vários idiomas, consegue falar à perfeição o "brasileiro". A única diferença é a prosódia que vem do francês que ela domina (vive em Paris, onde fez teatro). A atuação teria efeito maior sem a peruca que esconde parcialmente sua expressividade e beleza com certo mistério.

Laura Castro, a autora, é igualmente atriz e assume o papel da filha com empenho, mas sem pleno domínio do que deve transmitir. Texto e encenação têm um instante perigoso na reconciliação final. A transição do acerto de contas para a entrega maternal é dúbia. Algo não fecha com verossimilhança e confunde o público, que fica na dúvida se a peça acabou. Falta nuances na iluminação e a cenografia, ao evitar o realismo, excede na abstração. Reparos que não impedem constatar que estamos perante um teatro que deixa de lado as manifestações sexo-comportamentais carnavalescas e as polêmicas com homófobos isolados para ir além. Nada será como antes. Tanto a ditadura politica como a dos costumes impõe a travessia dolorida expressa na comovente letra de Aos Nossos Filhos, de Victor Martins e Ivan Lins, que as duas mulheres cantam. A composição menciona a falta de abraço, a falta de espaço, porque os dias eram assim; e em alguns casos continuam assim.

CRÍTICA

TEXTO ACERTA AO IR ALÉM DE POLÊMICAS RASAS E MAIS FÁCEIS LIGADAS AO TEMA

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