Sjoerd Booij
Sjoerd Booij

O amor nos tempos do isolamento social

Como as restrições de viagens por causa da pandemia acabaram com meses de planos e destruíram os ânimos

Ashley Fetters, The Washington Post

11 de janeiro de 2021 | 05h00

Nos seis anos desde que se conheceram, Sam Morrison e Shifra Samuel estiveram mais separados do que juntos, com suas respectivas localizações geográficas dançando em torno uma da outra em constante mudança. Eles fizeram seu relacionamento funcionar enquanto moravam em estados diferentes, em países diferentes, em lados diferentes do globo e em diferentes bairros da cidade de Nova York (quase tão desafiador quanto os três anteriores, se você perguntar a alguém que more por lá).

Mas Sam e Shifra, que têm 30 e 28 anos, respectivamente, e são ambos diretores de arte e cineastas freelance, nunca tinham enfrentado as longas distâncias como o fizeram em 2020: presos em continentes diferentes, cada um a milhares de quilômetros de onde se conheceram e se apaixonaram, com praticamente todas as viagens ao redor do globo interrompidas indefinidamente.

“Definitivamente, houve alguns dias que foram super difíceis, em especial porque não tínhamos nenhum prazo”, disse Shifra em uma entrevista por Zoom, de Amsterdã.

“Essa foi a parte difícil. Se você sabe que vai levar seis meses, pode se preparar mentalmente”, Sam interrompeu ao lado dela no sofá.

Os pesquisadores suspeitam que os relacionamentos de longa distância são mais comuns hoje do que há 20 anos, pois a comunicação remota é mais barata e eficiente. Mas mesmo com a ajuda de mensagens de texto, e-mails, chamadas por FaceTime e por Skype, os relacionamentos de longa distância como o de Sam e Shifra enfrentaram um novo obstáculo em 2020: restrições de viagens relacionadas à pandemia ao redor do mundo acabaram com meses de planos e destruíram os ânimos.

Alguns casais viram os relacionamentos se deteriorarem e, em algum momento, ruir sob a tensão. Outros simplesmente cancelaram reservas, adiaram planos e fizeram o possível para lidar com a decepção. Sam e Shifra, entretanto, descobriram que o tempo separados os deixava mais certos do que nunca de que era hora de se comprometerem – e de estarem no mesmo lugar – para sempre.

Tudo começou de forma simples, em um bar em Alphabet City, em Manhattan. Sam e Shifra trocaram contatos por Snapchat (afinal, era 2015). Ela o convidou para um evento de trabalho. Ele a convidou para uma festa do Super Bowl. Shifra, que é da Índia, estava morando nos EUA com um visto de estudante e, quando ele expirou, um ano depois, eles eram inseparáveis.

Mas eles se separaram: Shifra voltou para a casa de sua família em Bangalore e ficou por lá enquanto se candidatava para fazer pós-graduação nos EUA, e Sam empacotou o que tinha em seu apartamento em Nova York e mudou-se para o oeste do país em busca de um emprego em Los Angeles. No verão de 2016, Sam estava visitando a família de Shifra quando ela recebeu sua carta de aceitação da Universidade Virginia Commonwealth, e eles passaram os dois anos seguintes visitando um ao outro em costas opostas do país.

Depois de se formar em 2018, Shifra mudou-se para uma casa que ficava no mesmo bairro onde Sam vivia. Mas o breve e feliz ano com a conveniência de ter um relacionamento de curta distância chegou ao fim em 4 de junho de 2019. Shifra recebeu um e-mail dizendo que sua empresa não poderia mais bancar seu trabalho nos EUA. Sua solicitação para o visto H-1B para permanecer no país foi rejeitada.

Devastada, Shifra passou aquela tarde evitando os telefonemas de Sam. “Eu achava que isso iria acabar com nosso relacionamento”, Shifra lembrou. “Eu achava que teria que voltar para a Índia, então eu pensava, ‘Eu não vou pedir a ele para, tipo, se mudar para a Índia.’”

Shifra ligou para seu pai, no entanto. Então o pai ligou para a irmã dela, que ligou para Sam. Sam continuou ligando sem parar para Shifra e, quando ela finalmente atendeu, em meio às lágrimas, disse a ele que não sabia o que a notícia significava para o futuro deles.

Sam não deixou a dúvida pairar no ar. “Ele respondeu algo como, ‘Vou me mudar com você’”, disse Shifra. “Assim, sem hesitação.” Sessenta dias depois, os dois haviam dado ou vendido a maior parte do que possuíam. Eles se mudaram para Cingapura, lugar do escritório para o qual Shifra havia sido transferida por seu empregador.

Na época, “as pessoas nos perguntaram: ‘Vocês já estão juntos há tanto tempo. Por que não se casam para ficar nos EUA?’”, Shifra lembrou. “Mas isso parecia uma fuga. Isso teria sido uma decisão baseada no medo de ir embora contra, tipo, uma decisão por amor um pelo outro.”

No início de 2020, depois de descobrir que Cingapura não era bem o estilo deles, Sam e Shifra decidiram tentar outro lugar que tinham pesquisado: Amsterdã. Eles fizeram o que pensaram que seria uma parada rápida em Bangalore, antes da chegada planejada em Amsterdã: ele chegaria ao destino em março. Ela iria em abril.

Sam desembarcou em Amsterdã em 12 de março. Poucos dias depois, quando as embaixadas foram fechadas e as restrições de viagens entraram em vigor em todo o mundo, ficou claro que Sam estaria na Holanda sozinho indefinidamente.

Sam e Shifra passaram os cinco meses e meio seguintes conversando por vídeo constantemente, às vezes assistindo filmes juntos. Na época em que eles se revezavam em visitas à Califórnia e à Virgínia, Sam dizia: “Vamos tentar encaixar nosso relacionamento nesses quatro dias todos os meses.” Mas desta vez, eles fizeram um esforço para passar algum tempo juntos virtualmente enquanto separados. “Fizemos projetos criativos juntos”, disse Shifra. “Pintamos juntos”, acrescentou Sam.

Ainda assim, viver separado tinha seus momentos solitários. Sam não conhecia ninguém na Holanda. As diferenças de fuso horário levaram a horas desoladas e vazias. Quando eles se reencontrassem, decidiram, iriam pedir o outro em casamento.

“Passar por tudo isso nos fez perceber a importância de estar com o outro: ‘Eu não quero perder você. Eu quero ficar junto, não importa o que aconteça’”, disse Shifra. “Nunca tive tanta certeza sobre isso.”

Em uma quinta chuvosa no final de outubro, dois meses depois que Shifra finalmente chegou a Amsterdã, Sam a enviou para uma caça ao tesouro. A brincadeira terminou com Shifra dançando ao lado de um canal em uma fantasia de “tubo-humano” feita em casa e Sam subindo em um barco vestido do mesmo jeito, uma homenagem à fantasia de casal do primeiro Halloween deles. Então ele deu a ela um anel de diamante que pertencia a sua família há mais de um século.

Shifra também o pediu em casamento alguns dias depois, dando a Sam um colar estilo gravata personalizado e um jogo de cartas que ela havia preparado. Intitulado Monogamy: Seal the Deal (Monogamia: feche o negócio), era baseado no Monopoly Deal, um jogo que eles jogam com frequência. “Propriedades” incluía vários de seus endereços anteriores; em vez de um cartão “Vá para a cadeia”, Shifra disse. “Vá para o aeroporto.”

Sam e Shifra não são os únicos cujo noivado foi desencadeado em parte pela pandemia. Mas, para eles, o casamento significa algo mais do que apenas ser parceiros para sempre.

“Quando ele me pediu em casamento, ele disse: ‘Quando nos conhecemos, morávamos em bairros que ficavam a 16 quilômetros de distância. Depois nos mudamos para diferentes cidades que ficavam a mais de 4 mil quilômetros de distância. Em seguida, mudamos para diferentes países que eram 15 mil quilômetros distantes. Então estávamos na mesma cidade, a apenas 1,5 quilômetro de distância. Depois, novamente, estávamos em países diferentes’”, Shifra recitou de cor. “Agora, finalmente, estamos sob o mesmo teto”. De agora em diante, Sam e Shifra concordaram, eles não vão gastar mais do que a duração média de uma viagem de negócios longe um do outro. Para eles, o casamento significará nunca mais viver em casas diferentes. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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