O amor nos tempos da 3ª idade

Depois de filmar a infância em A Culpa É do Fidel, Julie Gavras trata com humor e inteligência a crise de um casal de 60 anos

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2011 | 03h06

Além de adorar comédias, principalmente românticas, Julie Gavras adora contar histórias do ponto de vista das crianças. Em A Culpa do Fidel, encantou com a história da garotinha Anna, que, aos nove anos, via seu mundo ruir à medida que seus pais se engajavam na luta comunista e tentava entender e amadurecer em meio a este conturbado mundo.

Já em seu novo filme, O Amor Não Tem Fim, atração da 35.ª Mostra de São Paulo, a garotinha tem 60 anos e se chama Mary, que, assim como Anna, também tenta entender e amadurecer em meio a um mundo conturbado.

A diferença é que amadurecer para Mary é descobrir como 'aceitar e viver a velhice' em tempos em que 'entrar para a terceira idade' não significa mais ser vovó. "Pensa que quando envelhecemos simplesmente descobrimos sabedoria? Comece a jogar bridge", diz uma personagem a Mary (vivida pela corajosa Isabella Rossellini). "Concordo. Não mudei meu tema. Não fui da 'infância' às questões da 'velhice'. Tanto Anna quanto Mary poderiam ser a mesma mulher. As duas estão tentando encontrar seu caminho", respondeu a diretora ao Estado, quando questionada sobre o porquê de mudar radicalmente de ponto de vista em seu segundo filme. "Não mudei. Só acrescentei alguns anos. Uma vez me disseram que, na verdade, não viramos uma pessoa de 60 anos, mas continuamos sendo a pessoa que fomos aos 10, só que com 50 anos a mais."

Mas Julie, que tem 40 anos, diz que admite que O Amor... é mais profundo que Fidel. "Porque, ao mesmo tempo em que hoje somos mais ativos e parecemos mais jovens que nossas avós (e não só graças aos cosméticos e às cirurgias, mas o comportamento mudou também), falar de velhice nos aproxima da morte."

Muito por seu histórico familiar (Julie é filha do grego Costa Gavras, mestre do cinema político), a diretora, mesmo quando fala de 'temas leves' não deixa a profundidade de lado. "Na verdade, são questões tão importantes quanto as de que meu pai trata. Filmar, e ver, a vida com humor é questão de escolha."

Foi uma atriz que tem inteligência suficiente para enxergar a questão do 'ficar velha' com humor que aceitou fazer o papel de Mary em O Amor Não Tem Fim. "Mandei o roteiro para várias atrizes francesas. Nenhuma quis associar sua imagem à de uma mãe de família que, após ter vivido décadas com o marido (Adam, vivido pelo ótimo William Hurt), descobre que está sim envelhecendo e que talvez não tenha mais nada em comum com ele", contou Julie. "Mas Isabella quis. Eu a tinha 'descoberto' em Green Porno, sob a vida sexual dos insetos. Ela é tão engraçada vestida de inseto, e se vê que ela não liga para isso de 'imagem de diva' etc. Foi a única que não teve medo", conta Julie. "Isabella, que tem 59, me disse que não se sentiria 'idosa' no papel de uma mãe de 60 anos, que já tinha passado desta fase: 'Me se senti velha no dia em que, aos 40 anos, meu contrato com a Lancôme foi cancelado.' É assim que funciona, não? Aprender a ser maior que rótulos que nos impõem é o desafio."

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