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O amor existe

José amava Rosa, mas Rosa não o amava. Havia uma solidariedade silenciosa que ninguém se arriscava a expressar na presença da Rosa. Longe dela, ajudariam o José a conquistar a Rosa

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

14 de julho de 2019 | 02h00

Chamava-se José e amava Rosa, mas Rosa não o amava. Rosa não só não amava José como fazia discursos contra o amor na cara do José, para desanimá-lo. (“Vê se te enxerga, Zé!”) O amor era uma coisa antiga, ultrapassada, obsoleta, piegas, ridícula. Quem amava hoje em dia? Rosa fez a pergunta retórica para toda a mesa. Depois para todo o bar. Alguém ali amava alguém? Ficaram todos em silêncio. Amar, amavam. Tinham namoradas e namorados. Adoravam suas mães e seus cachorros. Alguns eram casados. Alguns sonhavam com a Patricia Pillar todas as noites. Mas todos compreenderam que o alvo da revolta da Rosa era o José. Sentado ao lado da Rosa, José só sacudia a cabeça, sorrindo tristemente, lamentando a incompreensão do mundo. 

*

Um dia, aproveitaram que a Rosa ainda não aparecera no bar e fizeram uma proposta ao José. Porque a verdade era que havia misericórdia no bar pelo pobre apaixonado. Havia uma solidariedade silenciosa que ninguém se arriscava a expressar na presença da Rosa, que era conhecida por quebrar cadeiras quando perdia uma discussão. Longe dela, ajudariam o José a conquistar a Rosa. A torná-lo mais palpável aos olhos da Rosa. O José aceitava ser ajudado?

– Aceito – disse José. – Se não der certo, vou apelar pro papa.

*

– Vamos começar pelo físico – disse alguém, que tomara a liderança da operação. – O que podemos fazer de novidade? 

– Uma plástica?

– Nem pensar

– Outro penteado?

– Não faria diferença...

– Você e a Rosa não têm algum gosto em comum? Algum assunto que dê conversa?

– Bom... Eu sei que ela toma muito chope... 

– Isso nós todos nesta mesa tomamos, meu caro.

– E se eu deixasse crescer um bigode?

– Meu amigo, duvido muito que um bigode conquiste a Rosa. Ela é capaz de tirar o seu bigode a tapa!

– Eu sei! – gritou alguém de outra mesa. – Ciúme! Nunca falha.

*

Combinaram o seguinte. O José passaria a frequentar a mesa com uma mulher que apresentaria como “Sulamita, minha noiva”. Enlouquecida pelo ciúme, Rosa tentaria o suicídio. 

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