O AMOR, EM SUA FACE MAIS RADICAL

Michael Haneke faz o sublime conviver com a decadência

O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2013 | 02h13

Michael Haneke tem sido muito recompensado por Amor. Palma de Ouro em Cannes, Globo de Ouro de filme estrangeiro, favorito ao Oscar na mesma categoria e indicado em outras como atriz (Emmanuelle Riva), roteiro e direção e filme. Dada a dureza do tema - e a ausência de complacência com que é tratado - não deixa de ser surpreendente. Ainda mais num mundo que corteja celebridades, amenidades, o supérfluo. Haneke fala de decadência, sofrimento e morte. Sem concessões.

Claro, fala, acima de tudo do que diz o título - Amor. O que é o amor de uma pessoa por outra. Até onde ele pode chegar para evitar o sofrimento inútil? O amor pode ter mais direitos do que a própria vida? São perguntas que emergem deste filme tanto belo quanto duro, tão sofrido quanto encantador. É com essas questões que tem de se haver o casal Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant), ambos em interpretação soberba.

Haneke tem sido recompensado mas também não ficou ao abrigo de críticas. A principal delas, da revista Cahiers du Cinéma que, em novembro, abriu uma capa com a foto dos dois atores com o título sobreposto Haneke: Amour e Misanthropie. Em longo artigo, Haneke é qualificado como misantropo, avesso à espécie humana. No fundo, o filme em questão, Amour, seria reflexo dessa visão de mundo, dessa "personalidade" do artista. É um problema do método crítico dos Cahiers - a adesão ou rejeição em bloco da obra de um cineasta.

Assim como Truffaut podia escrever, sem susto, que o pior Hawks era mais interessante que o melhor Huston, seus herdeiros se autorizam a dizer que o cineasta Michael Haneke, que um dia cometeu Funny Games, não tem chance de fazer um outro tipo de cinema. Será impiedoso para todo o sempre, no limite do fascismo. É uma crença atroz no determinismo, uma falta de fé absoluta na capacidade humana de se transformar.

Ora, é preciso estar voluntariamente cego para não enxergar que Amor é, pelo contrário, um filme também sobre a piedade. Ele coloca o espectador diante de uma das mais dolorosas experiências que a vida pode lhe trazer, uma verdadeira prova: a decadência física e mental de um ser amado. Não que isso já não tenha sido feito pelo cinema. Já foi feito e de maneiras diferentes por cineastas como Ingmar Bergman (Gritos e Sussurros) e James L. Brooks (Laços de Ternura). Mas talvez nunca tenha se exposto à decadência com o naturalismo e intensidade de Amor.

Haneke acompanha esse processo em toda a sua lentidão e inexorabilidade. É incômodo? É, profundamente. O cineasta propõe um cinema que não se dá de forma imediata como prazer, mas coloca na tela uma situação humana com tudo o que ela comporta de sublime e também de pateticamente frágil. Daí a dizer que se propõe a torturar o espectador, vai uma grande distância.

Europeu, e austríaco, Haneke joga com o contraste entre a beleza e a decadência. A arte (o casal é ligado à música erudita) convive com fraldas geriátricas e gritos de dor. O sublime se dissolve no profano da carne e, de certa forma, a história não deixa de ser uma alusão ao "vanitas" bíblico, ao inútil de toda a vaidade humana, destinada ao pó do qual proveio.

Esse mergulho na fragilidade humana, e também na sua potência afetiva, só poderia se dar com um elenco poderoso. Emmanuelle Riva, atriz de Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais, é pura entrega. A maneira como desconstrói a si mesma é notável e corajosa. Assim como Trintignant, que assiste, impotente, a toda uma tragédia se armar ao seu redor. Lembramos do Trintignant de A Fraternidade É Vermelha, de Kieslowski, ou, mais longinquamente, de O Conformista, de Bertolucci. Ator de poucos gestos, minimalista, faz da contenção um instrumento do afeto.

Esse duo extraordinário brilha contra a moldura despojada proposta por Haneke. Sem atenuantes, sem refresco, exatamente como se dá na realidade. Isabelle Huppert, em papel menor, é não menos importante, como o terceiro elemento que se insinua numa trama vivida predominantemente a dois. Ela é a filha, que visita os pais de vez em quando e assiste às mudanças - também ela sem nada poder fazer.

Fragilidade, impotência, radicalidade do afeto são os elementos que compõem o retrato deste filme de Amor, tão terno como duro. Não é culpa do diretor que a humana realidade seja desse jeito.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

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