360 Films LTD 2011/Divulgação
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O amor em 360º

Fernando Meirelles fala de seu novo filme, o mais intimista e global de seus projetos

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2011 | 00h00

Entrevista

Fernando Meirelles

CINEASTA

Menos é mais. Mais difícil. Mais desafiador. Mais intimista... Ao menos quanto se trata de 360, o novo filme de Fernando Meirelles que tem pré-estreia mundial no Festival de Toronto em setembro. Apesar de sugerir, e ser, uma volta ao mundo (ainda que metafórica), 360 é o filme mais simples do diretor que já filmou a guerra do tráfico no Rio, calamidade mundial, conspirações internacionais...

Com roteiro do premiado Peter Morgan (de A Rainha) é inspirado na polêmica obra do austríaco Arthur Schnitzler, Der Reigen (Ronda), escrita em 1897. A trama da peça gira em torno dos encontros e desencontros de casais de diferentes classes sociais e origens. "Peter se inspirou nos elos que unem as pessoas, sem que elas mesmas saibam. E sem que possam interferir nas escolhas que acabam sendo feitas e que as afetam. Quanto de fato é fruto racional de nossas escolhas? Quanto é fruto de um mosaico em que as peças estão conectadas?"

Assim como as contradições humanas que fazem de 360 uma história tão rica, a contradição entre o fato de ser, como Meirelles define, um filme pequeno, despretensioso e íntimo, o longa exigiu uma estrutura de produção complexa, com equipes na Inglaterra, França, Áustria, EUA e Eslováquia. É, como o diretor define, um filme-táxi, do qual os passageiros/personagens/atores sobem e descem todo o tempo. E ele, mesmo sem itinerário definido, os acaba conduzindo a um destino comum. Os passageiros são Maria Flor, Anthony Hopkins, Rachel Weisz, Jude Law, Juliano Cazarré, Jamel Debouze e Ben Foster.

Esta foi a primeira vez que Meirelles dirigiu atores em línguas que não compreende, como alemão, eslovaco...

Orçado em US$ 15 milhões, é uma coprodução Inglaterra, França, Áustria e Brasil, "mas a Ancine não o considera brasileiro por não preencher os requisitos técnicos necessários". "Não estamos usando dinheiro brasileiro, mas o filme não deixa de ser brasileiro, já que, além do diretor, montador e dois atores, montagem e pós-produção estão sendo feitas na O2 Filmes, em São Paulo", explicou o diretor ao Estado.

Lançar 360 em Toronto foi desde sempre uma estratégia?

Não teríamos tempo para terminá-lo para Veneza, e Berlim está muito distante. Quero lançar o filme ainda neste ano para começar 2012 com uma nova claquete. Estamos correndo para pegar Toronto, vamos acabar aos 45 do segundo tempo. Para o mercado norte-americano, Toronto é hoje o principal festival. O mercado está se igualando a Cannes em volume de negócios e a cada ano cresce mais. Esta será minha quarta vez em Toronto, onde estive com Domésticas, CDD e Cegueira.

O que foi novo em 360, que, assim como Cegueira e Jardineiro, tinha locações tão variadas?

Nunca havia dirigido atores em línguas que não falo. Há cenas em russo, eslovaco, árabe e alemão, além do português, inglês e francês. Mesmo quando não se entende o que um ator fala, é possível saber se ele está bem ou não. Mas entender todas as palavras é bem mais confortável. Com um dos atores, Vladimir Vdovinchenko, falava por meio de uma intérprete.

Diante de um novo projeto, que parece que não tem solução, você diz que vê a bola de neve descendo... e tem de se virar para correr ou encará-la. Quando entrou no projeto de 360, não sabia que filme ia fazer. Não seria todo diretor "viciado em adrenalina"?

No meu caso acho que não é tanto o vício na adrenalina. Meu problema é que sofro de entusiasmo. De acordo com o dicionário, a palavra vem do grego en + theos (em Deus), ou possuído por uma força divina. Não sou religioso. Então Deus está fora da minha equação, mas percebo quando sou arrebatado por uma alegria que me dá vontade de avançar sem medir obstáculos. Quando a onda passa, já estou comprometido e aí às vezes vem o arrependimento. Mas sigo em frente. Nunca "cheirei" na vida, mas imagino que o efeito do pó tenha alguma relação com essa onda que me arrebata. Com a idade, aprendi a controlar isso e já sei que, mesmo quando vem a baixa, uma hora vou pegar a onda novamente. Se num momento me entusiasmei é porque algo ali falou com alguma parte dentro de mim. Então vale a pena ser investigada.

Além do entusiasmo, por que entrou para o 360?

Porque gostei ou me identifiquei com um aspecto que está em quase todos os personagens. São pessoas boas que tentam agir da melhor maneira. Nem sempre conseguem. Como todos, lutam contra seus desejos e pulsões. Às vezes ganham, às vezes perdem. O texto de Morgan também é como pudim de leite, você vai devorando e não consegue parar.

Essa ciranda humana é uma metáfora para nossos dias de globalização? Quando Schnitzler escreveu, o "mundo era menor", mas, hoje, os dramas continuam pequeninos.

Fato. Há uma coisa em nós que nem toda essa parafernália de internet e vida virtual mudará, como querem crer alguns. No fundo ainda somos como os visigodos, mas agora com iPhones. Por isso que, ao ler Shakespeare, parece que conhecemos cada um dos personagens. Quando se toca nesse núcleo duro, que é o que somos, uma obra tem mais chances de durar.

Ronda foi "proibido" na época de seu lançamento. Ainda há algo que choque o espectador? Há muita cena de sexo? É mais difícil filmar "sexo" ou "intimidade"?

Chocar é muito fácil e tolo. Filmar sexo explícito também não deve ser nada complicado, basta ter estômago. Já conseguir um clima de intimidade e verdade é mais complicado. Colocar os atores numa mesma sintonia, deixá-los à vontade, ser técnico mas manter um frescor. Acho que em 360 há uma cena muito íntima entre a Rachel Weisz e o Juliano Cazarré em que chegamos a algum lugar. Não há muitas cenas de sexo no filme, aliás, e as que estão lá acho que são elegantes ou têm humor.

Para "filmar a intimidade", além da luz, granulada para sugerir em vez de "entregar", há outras descobertas e soluções?

Este filme, mais do que os outros que rodei, foi sendo encontrado pelo caminho. Estava meio tenso antes de começar a rodá-lo, pois gostava daqueles personagens, mas não sabia exatamente sobre o que era. Numa tarde sentei com o Morgan e confessei que não entendia muito o que estávamos dizendo e pedi para ele ser claro e me explicar o que tinha na cabeça quando escreveu o roteiro. Para minha surpresa, respondeu tranquilo: "Não sei. Uma hora vamos saber ou então vamos quebrar a cara". Por causa dessa imprecisão na largada, eu estava especialmente permeável à contribuição de todos ao redor.

Valeu a pena?

O processo foi uma maravilha, já o resultado não sei dizer, perdi a noção depois de ver o filme tantas vezes. Agora é esperar para ver se alguém paga o ingresso para assistir e esperar também que a turma que tem espaço nos jornais veja e carimbe o filme com bonequinhos e estrelinhas, informando aos leitores se o último ano da minha vida foi de algum proveito ou puro equívoco e perda de tempo.

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