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O amor demais de Lelouch

Final de filme é excessivo, mas seus personagens são fascinantes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2011 | 00h00

No Dicionário de Cinema, Jean Tulard é duro com Claude Lelouch. Diz que gostaria de falar bem de um diretor ambicioso e que respeita seu público pagante, mas observa que ele não consegue se desvencilhar da etiqueta colada pela crítica, principalmente a ligada a Cahiers du Cinéma, que nunca conseguiu deglutir o chabadá romântico de Um Homem, Uma Mulher - Lelouch seria, ou é, um industrial do amadorismo. Isso não o impede de ter no currículo alguns dos prêmios mais cobiçados do cinema - Palma de Ouro, Oscar, César, etc. - nem de ter sido homenageado com uma retrospectiva pela Mostra de São Paulo.

Lelouch está de volta ao cartaz. Como Retratos da Vida, de1981, seu novo filme cobre décadas de História, com maiúscula, para falar de amor, ou de amores. E ele se dá ao luxo, como narrador, de falar na primeira pessoa com o público, projetando-se metalinguisticamente na trama. Se não é a sua história real, ela é ficcionalizada como Lelouch gostaria que fosse. Justamente o final é excessivo, mas, até lá, justiça seja feita, personagens e situações conseguem ser fascinantes.

É a história de uma mulher, Audrey Dana, e de seus amores. A narrativa desdobra-se em flash-backs, contada por um dublê de advogado e pianista. Ele é um dos homens na vida de Ilya. Filha de uma atriz pornô, ela é uma daquelas mulheres que amam demais. A narrativa atravessa a 2.ª Guerra, os campos de extermínio, o existencialismo, avança até quase a atualidade, quando a protagonista, velhinha, é impedida pela cegueira de ver a própria história. Ela se envolve com um nazista na França ocupada, é salva por dois soldados norte-americanos - um negro e outro branco. Impossibilitada de escolher, decide a sorte na moeda e provoca uma tragédia. O amor definitivo chega de forma um tanto inesperada, e tudo é filmado por um jovem cinegrafista, que é - quem? - Lelouch.

Ilya é julgada por um tribunal por haver supostamente assassinado o marido, mas o julgamento, na verdade, é por haver ousado viver a vida fora das normas convencionais. Lelouch incorpora ficções que ele próprio realizou - Ilya convence os amantes ianques a irem ver as lutas de Marcel Cerdan, um dos homens na vida de outra mulher extraordinária, Edith Piaf (e Lelouch fez Edith e Marcel, lembram-se?). Tudo é muito derramado - a emoção, o amor. É como se Esses Amores quisesse ser, e não é?, a súmula de Um Homem, Uma Mulher, com direito na participação especial de Anouk Aimée, Viver por Viver, O Homem Que Eu Amo, A Aventura É Uma Aventura. É pegar ou largar. Entrando na história, você dificilmente deixará de se envolver - a música interage nos diferentes momentos, criando o clima. Mas Lelouch é o industrial do amadorismo de sempre. Falta-lhe rigor, e a autocomplacência de mostrar as imagens dos próprios filmes é demais, mesmo que seja comovente ver a Annie Girardot que ele filmou de forma tão apaixonada.

ESSES AMORES

Título original: Ces Amours-là. Direção: Claude Lelouch. Gênero: Drama (França/ 2010, 120 minutos). Censura: 12 anos.

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