O Amilcar de Castro das artes gráficas

No ano passado, na 5.ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, com curadoria-geral de Paulo Sergio Duarte, o artista mineiro Amilcar de Castro (1920-2002) foi o grande homenageado. Dentro da mostra retrospectiva realizada em torno da obra desse que é considerado um dos nossos maiores escultores, o mestre dos cortes e dobras - com curadoria de José Francisco Alves, uma seleção de produções escultóricas, pinturas, gravuras, desenhos - uma seção se dedicava a apresentar o Amilcar de Castro programador visual, responsável por projetos gráficos para jornais, revistas e capas de livros. Campo "periférico" no contexto maior de sua obra, como define José Francisco Alves, mas não por isso menos importante, a programação visual para publicações foi uma vertente a que Amilcar se dedicou durante longo período de sua carreira, entre a década de 1950 e até o ano de sua morte.Para a Bienal do Mercosul, a mostra com os projetos gráficos de Amilcar de Castro tratou-se de ser a primeira já realizada em torno desse campo. Agora, há a oportunidade de vê-la em São Paulo. Ela é o destaque das mostras do novo ciclo de exposições do Centro Universitário Maria Antonia, que será inaugurado nesta quinta-feira na instituição e ainda apresenta exposições dos artistas Gilberto Mariotti, Marco do Valle e trabalhos realizados dentro do Programa Nascente, criado em 1991 pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP.A grande referência quando se fala do Amilcar de Castro programador visual é a reformulação gráfica que o artista desenvolveu no fim da década de 1950 para o Jornal do Brasil, com Reynaldo Jardim. Antes desse grande feito, Amilcar já havia desenvolvido e começado suas primeiras experiências nesse campo em seu emprego na revista Manchete, criada no Rio em 1953. Aprendeu trabalhando mesmo o ofício da diagramação (paginador) - como grande artista, depois de aprender os recursos poderia dar asas à criação.Foi o poeta Ferreira Gullar quem indicou o nome de Amilcar de Castro para o projeto de reforma visual do Jornal do Brasil. A idéia era a de renovação total e radical e os primeiros passos dessa empreitada começaram em 1957 e se desenvolveu até 1959. Como conta o curador José Francisco Alves na publicação dedicada a Amilcar preparada por conta da 5.ª Bienal do Mercosul, o artista excluiu os fios das páginas para dar leveza ao excesso de texto, criou um sistema de organização visual numa linha mais vertical. Foi um processo de experimentação que o transformou em referência, tanto que depois ele foi chamado para outras reformulações, mas não aceitou todas - nesse sentido, fica mais do que evidente, como frisa o curador José Francisco Alves, que não se tratava de ser apenas um campo que ele se dedicou para sobreviver. O curador cita Yanet Aguilera, autora do livro Preto no Branco - A Obra Gráfica de Amilcar de Castro (Discurso Editorial/USP), que afirma de forma precisa que o artista levou para o campo da programação visual os mesmos princípios utilizados na escultura: a combinação do equilíbrio simétrico e assimétrico, a distribuição de forças e o contraste entre peso e leveza.Na mostra há também projetos que Amilcar realizou para outros veículos de comunicação, capas de livros, logotipos, cartazes e impressos. Como capista, vale destacar a série de acrílicas sobre tela feitas para livros de Franz Kafka, lançados entre 1997 e 1999 pela Companhia das Letras. Amilcar de Castro, Marco do Valle, Gilberto Mariotti e Projeto Nascente. Centro Universitário Maria Antonia. Rua Maria Antonia, 294, 3255-7182. 2.ª a 6.ª, 12 h às 21 h; sáb., dom. e feriado, 10 h às 18 h. Até 20/8

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