O amante latino, agora em versão para as telas

Sidney Magal dubla vilão de 'Meu Malvado Favorito 2' e arranca aplausos na trilha de 'Minha Mãe É uma Peça'

LUIZ CARLOS MERTEN/RIO, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h12

Segunda-feira à tarde, uma suíte do Copacabana Palace. O tempo passa e o Copa segue sendo o hotel mítico do Brasil. Desde os anos 1940 e 1950, por ali passaram astros e estrelas, a fina flor de Hollywood e da política internacional. Que outro lugar melhor para entrevistar Sidney Magal? Como o próprio hotel, ele não perde o brilho. "Estou em todas!" - ele abre os braços e a camisa aberta no peito revela o colar de ouro. Não é o medalhão com pingente em formato de M que usa o vilão de Meu Malvado Favorito 2 - El Macho -, mas quase. "Tinha de ser eu para fazer a dublagem. Até ele (o personagem) quer o Magal."

Na quarta à noite, de volta a São Paulo, o repórter vai rever Minha Mãe É Uma Peça na sessão das 22 horas no Shopping Bourbon. Às 20h30, não existem mais ingressos para a sessão que vai começar dentro de uma hora e meia. A projeção vira uma festa. Quando Suely Franco - a 'tia' - dança ao som de Sandra Rosa Madalena, o cinema quase vem abaixo. E quando, no fim, com as imagens da 'inspiradora' de Minha Mãe É Uma Peça - a mãe do ator/autor Paulo Gustavo -, Magal irrompe de novo na trilha com sua cigana, a mulher com quem vive a sonhar, ocorre o que é raro em sessões, digamos, normais de cinema. Em festivais ou em presença da equipe, tudo bem. Mas aplausos, e dos mais intensos, no fim de uma sessão qualquer? Mérito do filme, mas também de Sidney Magal.

Ele comemora. "É um orgulho muito grande saber que 35 anos depois a música é lembrada e cantada por todos, mas saber que a minha música proporciona sempre momentos de alegria e descontração é ainda muito melhor. É sempre bom saber que o trabalho da gente se mantém atual em todas as gerações." Alegria e descontração são indissociáveis da persona de Sidney Magal e, nesta segunda-feira, ele está um pouco rouco. Vai logo dizendo que não é nenhum problema com a voz, mas excesso de ontem (domingo), "porque me arrebentei vibrando com a vitória da seleção".

Ele admite que não se cuida. Toma gelado antes dos shows, e por conta disso Cauby (Peixoto) vive lhe passando o pito. Magal imita o lendário intérprete de Conceição. "Magal, meu querido, cuida dessa garganta porque não é só um dom. É o nosso sustento." Magal viaja no tempo - agradece à mãe, que foi quem o incentivou a cantar. Ele cantava por prazer, em alguns locais da periferia do Rio. Por ele, já estaria bom, mas ficou melhor. "Tive um empresário que queria ser cantor, mas não conseguiu. Foi ele quem esculpiu para mim a imagem de galã latino. Pegou três nomes comuns de mulheres em toda América Latina, Sandra, Rosa e Madalena, e fez uma música. Estourei."

Tamanho sucesso fez dele um mito e Magal jura que já encontrou fãs que lhe mostraram o RG para provar que se chamam Sandra Rosa Madalena. Ele não resiste - "Se f...", diz, e faz o gesto característico, batendo com a palma da mão no punho fechado. Seria grosseiro, mas é Magal - e ele pode. Ser showman é natural para ele, mas o astro revela que seu sonho sempre foi outro. "Desde criança, quando me perguntavam o que queria ser quando adulto, nunca pensei numa carreira. Meu sonho era ser pai." Como? "É, ser pai. Realizei meu sonho - tenho três filhos maravilhosos. São o orgulho da minha vida." Mas ele sabe que deve muito às suas ciganas. Conta uma história. "Estava em Salvador, no alto do trio elétrico de Ivete Sangalo. Disse pra ela : 'Quer ver? E puxei 'Quero vê-la sorrir/Quero vê-la cantar/Quero ver o seu corpo dançar sem parar' e estendi o microfone para a multidão. O público cantou a música inteira e a Ivete me disse: 'Vixe, home, quem me dera daqui a dez anos esse povo ainda saber uma música minha, que dirá daqui a 30 e tantos?' É sempre assim com Sandra Rosa Madalena." Um pouco mais tarde, uma repórter de TV lhe pede que dê uma palinha e cante um pedaço de Sandra Rosa. Ele cede - e o corredor do Copa se enche de gente para ouvi-lo.

É seu maior sucesso, mas não foi o único. No começo dos anos 1990, na época da lambada, ele renovou seu mito e arrebentou de novo com Me Chama Que Eu Vou, que foi até tema de novela da Globo (Rainha da Sucata). Mas houve um momento, lá atrás, em que Magal pisou em falso. Contra tudo e todos - empresário, gravadora -, resolveu mudar tudo. O estilo, o repertório. Quebrou a cara. Poderia ter sido o fim de tudo - da carreira - e, filosoficamente, ele chegou a pensar. "Acabou, foi bom enquanto durou." Só que, nisso, a trajetória de Magal se assemelha à de John Travolta em Hollywood. É outro que teve mais altos e baixos que tobogã e renasceu das cinzas, como fênix. Magal nunca mais mudou. "Não adianta. Se eu tento fazer outra coisa, se eu tento atuar, por exemplo, ninguém quer. Querem o Magal."

Tanto isso é verdade que, no cinema, interpretou a si próprio em Amante Latino, de Pedro Carlos Rovai, de 1979. Voltou a ser ele mesmo em Jean Charles, de Henrique Goldman, 30 anos mais tarde. Magal escancara o riso. Ri ainda mais quando o repórter diz que tirou o turbante da cabeça de Carmem Miranda e com ele estampou suas camisas. Tem umas 200, todas espalhafatosas. "Já sou alto, nem precisaria dessas camisas para chamar atenção, mas antes que eu chegue elas já me anunciam." São camisas GG, todas americanas. "Cada vez que vou aos EUA compro logo uma dúzia. E não uso só nos shows. É no dia a dia."

Até parece que El Macho, o personagem que dubla em Meu Malvado Favorito 2, foi inspirado nele. "Olha a camisa dele... Poderia ser da minha coleção." El Macho usa seu restaurante, no qual se apresenta em números de canto e dança, como fachada para atividades criminosas. "Tirando o crime, temos muito em comum. E as crianças, nas pré-estreias, adoraram o El Macho, como me adoram." Sob certos aspectos dublar é uma camisa de força. "Você tem o tempo certo das falas e está sozinho no estúdio. Não interage." Não improvisa - "Ah, não, até nisso, quando me chamam, é para que ponha um pouco do meu molho." E Magal põe.

Crítica: O ex-malvado se consolida como herói de coração 

Quem viu o primeiro Meu Malvado Favorito - e o filme fez grande sucesso de público no País -, com certeza não se esqueceu de Gru nem de seus aliados Minions. Gru era o que se poderia definir como malvado de bom coração. Só precisava de um empurrãozinho para se revelar como tal. Ele vem por meio de três meninas, três órfãs à espera de adoção. Mudam a vida de Gru justamente no momento em que ele, para provar que é malvado, resolve roubar... a Lua.

Isso ocorria no 1 e, no 2, Gru já é o bonzinho de carteirinha e, como tal, é cooptado por agência anti-vilões para enfrentar um novo malvado - o anterior, Victor, também se faz presente. O de agora chama-se El Macho e desenvolveu poção para liberar o lado maligno das pessoas. Suas vítimas preferenciais serão os Minions, que no começo da história estão pacificamente trabalhando na fábrica em que Gru tenta criar a geleia perfeita. As três filhas permanecem na trama e há o reforço da agente que coopta Gru - e que vira o interesse romântico do bonzinho, ex-malvado.

Cartão de visitas de uma nova empresa de animação, a Illumination Entertainment, Meu Malvado Favorito mostrou, com seu sucesso, que o segmento tem espaço além do já ocupado pela pioneira Disney, agora associada à Pixar, e por suas concorrentes DreamWorks e SkyBlue. Os críticos é que andaram reclamando do que seria a falta de ambição da Illumination. Ao contrário das demais, com suas propostas inovadoras de dramaturgia e linguagem, a Illumination se contentaria em contar histórias para crianças, sem maiores ambições.

Não há de ser a sequência a mudar a reclamação. Com direção de Chris Renaud e Pierre Coffin, que já assinaram o 1, Meu Malvado Favorito 2 segue o receituário do filme de espionagem, com direito a veículos anfíbios e uma parafernália de efeitos para incrementar a ação. As novidades, se é que se podem definir como tal, são a sede do vilão, localizada num shopping - um centro de consumo; a própria representação do maligno como macho latino; e a heroína que vem sacudir o coração de Gru (e que ele precisa salvar no desfecho da narrativa).

Leandro Hassum e Sidney Magal encabeçam a lista de dubladores - o primeiro substituindo Steve Carrell, de quem é fã de carteirinha, e o segundo tão ciente da própria persona (leia acima) que termina por admitir que só ele poderia emprestar a voz a El Macho. Afinal, além das camisas coloridas - e abertas no peito -, El Macho usa um colar com um pingente em forma de M (de Magal?). Nem Leandro nem Magal são dubladores profissionais, mas se inscrevem na tendência das distribuidoras de usarem star talents para atrair o público. Há até o Machito, filho de El Macho, para tentar atrair um segmento mais jovem do público - e quem lhe dá a voz é Arthur Aguiar, que fez a novela Rebeldes, na Record, e tem mais de um milhão de seguidores no Twitter. Se todos forem ver Meu Malvado Favorito 2, o filme vai disparar com um número de espectadores muito alto no ranking.

Meu Malvado 2 estreia em centenas de salas, como atração de férias, para a criançada. Mas a despeito de todo o apuro técnico, e dos star talents, o melhor do filme é o Exército de Minions que acompanha Gru. Eles são uns robozinhos amarelos muito esquisitos e se tornaram peças tão importantes do filme que introduzem os créditos - como aquele spot que assume o lugar do I na marca da Pixar.

Os Minions agradam tanto ao público alvo - as crianças - que serão os protagonistas de Meu Malvado 3, anunciado pelo estúdio para o ano que vem. A atriz Sandra Bullock acaba de ser confirmada como a vilã Scarlet Overkill do próximo filme. Pode ser uma forma de renovar a franquia, que só precisa, atualmente, de uma boa história, com alguma complexidade. / L.C.M.

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