O amante da onça

Não são exatamente literárias as lembranças do poeta Renê Guimarães que Pedro Nava registra em suas memórias. Poderia ter falado do autor de um soneto que, ali por 1930, andava em muitíssimas bocas em Belo Horizonte, os famosos catorze versos de Mulata - mas não: em lugar de decassílabos, o que o jovem vate aparece fazendo nas páginas de Galo-das-Trevas são suas costumeiras “sortes e acrobacias” nos beirais, torres e cornijas de uma velha igreja do interior mineiro, estrepolias, compara Nava, “iguais às de Quasímodo na Notre-Dame” de Paris. 

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

20 Outubro 2015 | 02h00

Outros se lembrarão de Renê Guimarães, moço vistoso e sedutor, abrindo a carteira para exibir à roda a foto daquela que, dizia, caíra de amores por ele. “A princípio julgamos tratar-se da fotografia de alguma namorada”, relata Delso Renault, irmão do poeta Abgar, em Chão e Alma de Minas. “Nada disso: era o retrato de uma pequena onça pintada, de olhar penetrante, que parecia atentar fixamente para o fotógrafo que a retratara.” Mais que amigo da onça: amante. 

Ante o pasmo dos circunstantes, Renê Guimarães pôs-se então a descrever um ato passional transcorrido no quintal de sua casa, no momento em que ele, nas palavras de Delso Renault, “tocava o indicador na bunda de uma galinha, para certificar-se se podia contar com o ovo”. Ao presenciar a cena equívoca, “a jaguatirica escapa da corda que a prendia e investe enraivecida sobre a ave, matando-a”. Por que?, parecem todos indagar, por quê? - e o poeta, gravemente, sentencia: “Ciúme, ciúme!”.

Mitômano, Renê Guimarães nem por isso esperava que alguém, a começar por ele mesmo, acreditasse nos enredos fantasiosos que desenrolava. Durante anos, detalhou perante amigos os lances tortuosos de Estrada de Damasco, romance em eterna elaboração, ambientado na Síria e protagonizado pela apaixonada e apaixonante Samira, obra da qual ninguém jamais viu uma única linha. “Sabíamos que tudo era imaginação”, escreve Delso Renault, e, “ao cabo de contas, nos divertíamos à sua custa e ele à nossa”. 

Ficcionista fictício, Renê acabou personagem secundário em Tempo Sempre Presente, único romance do arquiteto Sílvio de Vasconcellos, ambientado na Belo Horizonte na década de 1930. Secundário e exibicionista, conforme se lê nesse livro ainda inédito: “Os poetas e estudantes de Direito René Guimarães e José Bartolota ficavam nus nos reservados dos restaurantes para disputar quem tinha o corpo mais perfeito. ‘Meu corpo é mais perfeito’, desafiava Bartolota. ‘Quem dera’, replicava René. ‘Não chega aos pés do meu.’ Tiravam a roupa para conferir, em nudez completa, as vantagens corporais de um sobre outro. Faziam poses de estátuas, bailavam. Nós aplaudindo e estimulando, ora assinalando a superioridade de um, ora de outro, conforme detalhes específicos e ângulos de visão”. 

Segundo mais de um depoimento, Renê Guimarães foi, na juventude, um caso de beleza masculina, embora descuidado no vestir-se - desleixo que alguns punham na conta de atitude minuciosamente elaborada. Outro memorialista, Paulo Pinheiro Chagas, descreve um moço “alto, claro, cabelos avermelhados em carapinha”, dono de bela voz, “um tanto filósofo, irônico, irreverente”, além de orador capaz de mesmerizar plateias. O autor de Esse Velho Vento da Aventura lembra-se dele, braços erguidos, a derramar retórica num auditório, pouco importando se os operários que o ouviam davam conta de acompanhar voos retóricos como este: “Os calos de vossas mãos, estes gólgotas pequeninos...”.

Nascido em 1904, Renê Guimarães ignorou a Semana de 1922, e seguiu vida afora a sonetar. Nunca se preocupou em reunir seus poemas, invocando o exemplo de Cristo, que produziu ideias eternas sem editá-las em livro. Sua obra completa, sob o título E o Poeta Falou, coube num volume de 165 páginas, organizado muitos anos depois de sua morte, ocorrida em 1966. A joia da coroa, ali, é o supracitado soneto, merecedor de transcrição integral, quando menos pelos arrepios não só literários que terá provocado em nossos avôs:

“Mulata! Flor estranha das senzalas, / misteriosa rosa dos mocambos! / Tens dilúvios de amor na voz, se falas, / e incêndios de paixão nos olhos bambos.

Por tua fresca pele cor dos jambos / um cheiro quente de volúpia exalas. / Na cozinha és mais fêmea entre os molambos / que as brancas entre sedas pelas salas. 

Freira de amor de carne hospitaleira, / esposa oculta a quem ninguém dá nome! / Noiva da sociedade brasileira... 

Tu nos dás carne - fruto em nossa rede, / Eva trigueira da primeira fome, / Samaritana da primeira sede!”

Viro e reviro o livro de Renê Guimarães - mas nem sinal de algum soneto inspirado em certa onça ciumenta. 

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