O alumbramento dos jovens cineastas checos

A Lume resgata 'Valerie e a Semana das Maravilhas', filme de Jaromil Jires, que integrava a nouvelle vague do país

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2013 | 02h11

Jaromil Jires não existe nos dicionários de cinema editados no País - seu nome não aparece no de Jean Tulard nem no de Rubens Ewald Filho. Mas você vai agradecer à Lume que lança em DVD (R$ 37,90) o longa do diretor checo, Valerie e a Semana das Maravilhas. Jires pertence à nouvelle vague checa, à geração que encantou o mundo nos anos 1960 e 70. Foi contemporâneo do jovem Milos Forman e de Vera Chytilova. Morreu em 2001.

Havia um encanto todo particular no cinema que a Checoslováquia produzia naquela época. Pense nos filmes definidores daquela geração - Os Amores de Uma Loira (Forman), As Pequenas Margaridas (Vera), Um Dia Um Gato (Vojcech Jasny). O cinema checo assumia lições de liberdade criativa que a nouvelle vague francesa projetara sobre as novas cinematografias de todo o mundo, mas havia um tom, uma beleza formal - um caligrafismo da imagem - e um gosto pelo simbólico que dava a esses filmes um colorido especial.

É estranho falar-se em colorido, porque muitos eram em preto e branco, o mais belo P&B do mundo. Mas quando a cor se introduzia, ela própria virava personagem, como em Um Dia, Um Gato. Nada mais subversivo que as pessoas, confrontadas com o olhar do gato, assumissem cores que indicavam se estavam apaixonadas, se eram corruptas, se tinham más intenções etc. Esse refinamento da imagem se faz presente em Valerie e a Semana das Maravilhas. A rigor, não existe uma história, e menos ainda uma história forte. Valerie é uma garota que vive com a avó. E na semana do título, quando um grupo de atores passa por sua cidade, ela toma consciência das transformações em seu corpo.

Mais do que com sua narrativa, Jaromil Jires se interessa pela força poética das imagens, num clima fantástico que inclui até vampirismo. Elas não são só lindas. Carregam referências como se o tempo todo o diretor estivesse querendo usar o despertar sexual de Valerie para ilustrar conceitos. Neste sentido, a semana das maravilhas evoca Lewis Carroll (aquela Alice), embora o filme seja adaptado de um autor dos anos 1930, Vitezslav Nezval. Não se pode esquecer que a Checoslováquia vivia sob o jugo do comunismo, exceto no período conhecido como 'primavera de Praga'. Valerie é uma manifestação tardia dessa primavera (é de 1970). O alumbramento que produz vira experiência sensorial. E isso tem a cara do cinema checo dos anos 1960.

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