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O alto preço a pagar para desmontar uma farsa política

Jogo de Poder é um daqueles filmes que levam a marca de prestígio "baseado numa história real". É curioso esse apego ao "real", como se a ficção não fosse capaz de causar a mesma impressão de verdade no espectador. O cinema passa a ser, então, mera transcrição de algo que existe fora dele, no exterior, algo que está inscrito na realidade das coisas mesmas. E "coisas", aqui, se referem à História e, em particular, a fatos recentes e ainda bastante dolorosos para o público norte-americano consciente: a farsa montada pelo governo Bush para justificar a invasão do Iraque em 2003.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2011 | 00h00

O caso real a que se refere é o da agente da CIA, Valerie Plame (Naomi Watts), que tem a vida ameaçada e a carreira destruída quando seu marido, o diplomata Joseph Wilson (Sean Penn), denuncia a farsa em artigo publicado no New York Times. Na matéria, Wilson põe a nu a manipulação de informações sobre a suposta existência de armas de destruição em massa, criada para justificar a invasão do país de Saddam Hussein.

O filme, dirigido por Doug Liman, adota o formato de um suspense bem engendrado. Trabalhando com uma dupla de atores de fôlego e imprimindo ritmo tenso, Liman consegue prender a atenção do espectador do primeiro ao último fotograma, embora a aceleração às vezes dificulte a compreensão dos fatos. O que importa mesmo é a interseção entre a História e a vida pessoal dos protagonistas. Talvez aí haja algum exagero, como se o diretor não acreditasse na dramaticidade intrínseca dos fatos históricos e precisasse se apoiar numa crise de casal para dar mais colorido e vivacidade ao filme.

De qualquer forma, Jogo de Poder é mais uma celebração das virtudes da liberdade de expressão e informação. Na época, o governo Bush pôde mandar suas tropas ao Iraque, à revelia da ONU, mas montou uma farsa para justificar-se aos olhos da opinião pública. Quem cria uma farsa precisa sustentá-la. E isso é muito difícil, senão impossível, em ambiente de vigilância de uma opinião pública livre e sem o rabo preso. É um dos pontos de honra da cultura americana e o cinema não se cansa de louvá-lo - em histórias baseadas ou não em fatos reais - como pedra angular da democracia. Também parece ser tarefa do cinema mostrar que esse direito inalienável tem seu preço, que se paga às vezes com o sacrifício de vidas particulares. O preço da liberdade é a eterna vigilância, na frase atribuída a Thomas Jefferson.

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