"O Alquimista" vira filme de Hollywood

Em algum lugar nos Pirineus (fronteira da França com Espanha, onde passa as férias), é possível que o escritor Paulo Coelho tenha ficado sabendo ontem que seu livro, O Alquimista, finalmente vai ser filmado por Hollywood. Também é possível que ele não tenha ficado nada satisfeito com a notícia. Há pelo menos quatro anos Coelho tenta comprar de volta os direitos de filmagem do livro, vendidos para a Warner por mais de US$ 200 mil em 1994. Nenhuma sinopse apresentada pelo estúdio lhe agradou. A Warner chegou a convidar o autor para passar dois anos nos Estados Unidos escrevendo o roteiro. A agenda lotada de compromissos, aqui e lá fora, o impediu de voar para Los Angeles. Agora a Variety publicou que o estúdio incumbiu Laurence Fishburne de roteirizar, dirigir e atuar em The Alchemist, projeto para o fim do ano já que ele está às voltas com as duas continuações de Matrix, em que interpreta o personagem Morpheus. Fishburne tornou-se famoso quando, aos 15 anos, apareceu como um jovem soldado em Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, com quem também filmou Rumble Fish, e The Cotton Club. Com uma longa filmografia como ator, que inclui Othello e A Cor Púrpura, ele foi indicado para o Oscar por seu papel como Ike, o truculento marido de Tina Turner em Tina. Sua única experiência atrás das câmeras foi em 2000 com Uma Vez na Vida. Talvez o bom currículo de Fishburne não impressione Paulo Coelho. Afinal, antes dele, Quentin Tarantino, Roman Polanski, Claude Lelouch e Jane Campion (de O Piano) tinham se interessado em adaptar para as telas a história de Santiago, um jovem pastor de ovelhas do sul da Espanha que termina alquimista no Egito. O último diretor ligado ao projeto foi Alfonso Cuarón (de Grandes Esperanças). O problema, como disse várias vezes Paulo Coelho, não é tanto a direção e sim o roteiro. "Eles não têm o menor respeito pelos autores", chegou a dizer. "Não será a minha história que contarão caso cheguem a filmá-la." Tanto zelo se justifica. Foi com O Alquimista, lançado em 1988, uma ano depois de sua estréia esotérica com O Diário de um Mago, que Coelho tornou-se conhecido no exterior. Mais de 20 milhões de exemplares do livro já foram vendidos no Brasil e no mundo, em traduções para mais de 80 línguas e best seller em 18 países. Mas o feito mais impressionante de O Alquimista, talvez não esteja nos números astronômicos, mas no fato de a tradicional editora americana Harper Collins tê-lo incluído na lista dos 35 melhores livros do século passado, ao lado de Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley) e Cem Anos de Solidão (Gabriel García Márquez). Está certo que a Harper detém os direitos de publicação dos livros de Paulo Coelho em língua inglesa, mas a despeito disso o escritor brasileiro conseguiu um prestígio internacional talvez só comparável ao de Jorge Amado. A França, por exemplo, chegou a conferir-lhe vários prêmios importantes. Outro país de forte tradição literária, a Rússia no ano passado dedicou um grande seminário para discutir a obra de Paulo Coelho. Entre as personalidades que tiveram O Alquimista como o livro de cabeceira, encontram-se Madonna e Bill Clinton. Com tanto prestígio e êxito o caminho para Hollywood era previsível, mas Paulo Coelho acha-se no direito de ver sua história adaptada o mais fielmente possível para as telas. Fidelidade que ele disse ter visto na adaptação de O Alquimista para o teatro, pelas mãos de Walcyr Carrasco, em 1993, e até para os quadrinhos, realizada pelo desenhista Alexandre Jubran em 1994. Agora é Hollywood. E Hollywood o mundo inteiro vê.

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