Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O Aleph e o Hipopótamo II

O presente sempre será o único momento em que vivemos e sempre será fugidio

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 02h00

Quarta-feira passada, passeamos no hipopótamo de Brás Cubas e batemos o olho no Aleph de Borges. Para quem não se lembra ou não nos acompanhou na viagem, pensávamos sobre a natureza do tempo e a relação disso com nossas vidas. Não inventei essa preocupação. Ela talvez exista desde os tempos primitivos. Os primeiros relatos religiosos dos povos antigos, quase sempre, se preocupavam com o início de tudo. Como surgimos, de onde viemos, quem ou o que nos criou? Perguntas comuns a tantas crenças e até mesmo a filosofias distintas mundo afora. Acompanhados da angústia para entender o passado, nossos antepassados pensaram: se houve um início dos tempos, talvez haja um fim para eles. E o receio, medo ou pavor do fim dos tempos acompanhou muitas crenças até os dias de hoje.

Santo Agostinho tratou de questões similares no livro 11 das Confissões. O bispo faz perguntas interessantes, como o que faria Deus antes da Criação, ou seja, antes do começo do tempo? Afinal, se tudo é criação divina, o tempo também foi criado, não é mesmo? Com o que se ocupava o Todo-Poderoso quando nada existia antes dele? Pacientemente, o autor desenvolve a noção de um Deus que não está no tempo nem submetido a ele. Para os humanos, Agostinho fala de uma percepção psicológica do tempo, de um presente contínuo, ainda que existam e possam ser medidos o passado e o futuro. 

Vamos acompanhar o bispo de Hipona mais de perto. Se apenas existisse o presente, isso seria a eternidade. Um instante que durasse para sempre deixaria de ser um presente. Com isso, não haveria nem futuro, nem passado. Logo, nem sequer haveria tempo. Nesse caso, extremo mesmo só Deus, que está fora do tempo. Nós somos seres no tempo. Portanto, o presente sempre será o único momento em que vivemos e sempre será fugidio. Apesar de o pretérito e de o devir poderem ser medidos e expressos, vivemos sempre no presente. Ainda assim, a trilogia passado-presente-futuro é considerada imprecisa para o doutor da Igreja. O africano sugere que exista o presente das coisas passadas, o presente das presentes e o presente das futuras.

Se você sentiu dificuldade em acompanhar o raciocínio do filho de Santa Mônica, é porque estamos presos a uma concepção de tempo linear e progressiva. Leve em conta que qualquer obscuridade nasce da deficiência da minha explicação e não do autor das Confissões. Nós pensamos em antes, agora, depois. Nossa ideia de tempo é marcada pelo tempo que passou (horas, anos) e pelo que estamos agora, nessa altura do texto. O resto da crônica está no futuro que será revelado em momento adequado. Agostinho disse que o passado é presente porque ele só faz sentido quando o trazemos à memória. E a memória vive no presente. O futuro, por sua vez, só pode existir como antecipação no presente, quando o imaginamos bem aqui e agora. O exemplo que o filósofo nos deu foi o de entoar uma canção conhecida. Enquanto cantarolamos um verso no presente, nosso cérebro já antecipa o próximo, preparando o canto que virá. Ou seja, antecipamos o futuro.

A percepção do calendário marca a própria imaginação sobre o tempo. Como eu posso supor uma máquina do tempo se os fatos do passado, por exemplo, já ocorreram? Toda maneira de criar uma área de conhecimento como a História é um exercício de reconstituição provável, verossímil, visível e mais acurada de algo que não existe mais. Os exercícios artísticos como o cinema, pinturas e romances históricos são ainda mais livres e menos dotados de verossimilhança. Em termos agostinianos, um filme histórico é um exercício imaginativo do presente das coisas que vejo sobre o presente das coisas que não mais contemplo. Mesmo assim, o texto das Confissões parte da noção de um ser consciente fora da marcação do tempo. A marcação do nosso tempo fica clara pela consciência divina alheia e externa a ela. Usando em outro sentido a expressão spinoziana, sub especie aeternitatis, sob o ponto de vista da eternidade, ponto que eu, humano, jamais terei por ser finito. 

O tempo também pode ser visto como cíclico, como os calendários agrários dependentes das estações. A ideia de criação entre os maias descrita na obra Popol-Vuh implica várias tentativas e erros de homens imperfeitos. A Pedra do Sol (calendário asteca), redescoberta no fim do século 18 e hoje fulgurando no Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México, fala de eras que terminam em desastres e de mundos reiniciados e mantidos pelo sacrifício. Toda cosmogonia que a Pedra traz implica uma noção de tempo ligada a morais e demandas de atitudes. 

Já toquei em uma crônica anterior que o historiador Le Goff fala do tempo do mercador e o tempo da Igreja, o tempo do relógio e o marcado pelos salmos e liturgia de horas. A Bíblia, em célebre passagem, fala do tempo adequado para todas as coisas. (Eclesiastes 3). O texto de Salomão é sempre uma boa meditação.

Meu desejo era salientar que tempo e medida de tempo são coisas diferentes e, geralmente, percebidas como únicas; que existem muitas concepções de tempo; que existe um desejo intenso de prever e controlar o que supomos estar à frente e que a ideia de eternidade e de uma consciência eterna fora do tempo é uma das marcas da nossa cultura. Não existe um Aleph de verdade e os hipopótamos que conduzem ao tempo anterior a tudo estão ficando cada vez mais escassos. Complicado? Ora, dá um tempo! Ou tire um tempo para si. Tempo é o grande valor da vida. Bom domingo para todos nós!

Mais conteúdo sobre:
cinema religião Jorge Luiz Borges

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.