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O Alcantara

Ele não sabia onde ela ia, mas um dia encontrara um recibo de sauna unissex japonesa na sua bolsa

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2018 | 02h00

O Alcantara era detetive particular. Respeitadíssimo. E eficientíssimo. Suas investigações (era especialista em casos de adultério ) nunca falhavam. Nunca um relatório seu deixara de satisfazer um cliente, mesmo quando confirmava que o cliente era enganado pela mulher ou vice-versa. O próprio Alcantara era um exemplo de fidelidade. Casado com dona Evair, filhos formados, dois netos, costumava dizer que, conviver como convivia, no trabalho, com mulheres soltas e homens desconfiados (ou vice-versa), só fortalecera sua integridade moral. Não entendia como o sexo e a luxuria podiam levar pessoas ao descontrole e à loucura, como levavam. Nunca sequer pensara em outra mulher além da Evair. Cliente mulher para ele era homem, e homem feio.

Até que... O Alcantara encontrou a Dalva. Loira. Linda. Conheceram-se na padaria perto do escritório onde o Alcantara ia tomar café com leite e pão e manteiga todas as tardes, para aplacar sua úlcera, por recomendação de dona Evair. Ela pediu um sonho e um copo de leite frio. Conversaram. Generalidades. Tem glúten, não tem glúten, etc. E essa primavera? Depois do terceiro encontro na padaria, subiram para o escritório dele. Ele pensando: “Meu Deus, o que é isso? O que eu estou fazendo?”, ela tirando a roupa já no elevador. Durante um mês, todos os dias, os dois se amaram no escritório dele. Até que um dia entrou um cliente novo no escritório. O cliente conhecia a reputação de Alcantara. Sabia que ele era eficientíssimo. E queria contratá-lo para seguir sua esposa e descobrir se ela o enganava.

O nome dela, você adivinhou, era Dalva. E ali estava ela, na fotografia que o marido mostrou. Loira. Linda. Alcantara simulou uma tosse para disfarçar seu susto e sua súbita ingestão de ar. Dalva, segundo o marido, saia de casa todas as tardes. Ele não sabia onde ela ia, mas um dia encontrara um recibo de sauna unissex japonesa na sua bolsa. Estivera na sauna para tentar flagrá-la mas não a encontrara. O recibo valia alguma coisa como pista? “É um começo” disse Alcantara. Uma semana depois, Alcantara apresentou seu relatório. Era preciso ter cuidado, tinha oriental no meio. Dalva pertencia a uma Seita do Dragão e era amante do seu líder. Era melhor não se meterem naquilo. A seita, diziam, era assassina. O marido se resignou a perder a mulher e Alcantara e Dalva continuaram a se encontrar na padaria. E o Alcantara nunca mais se perguntou que poder terrível era aquele que o sexo e a luxuria tinham sobre o destino das pessoas.

 

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