O álbum da família de Mathieu Démy

Diretor fala dos pais e do que há deles em Americano

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2012 | 03h06

Mathieu Démy admite que ser diretor e filho de dois mitos do cinema francês, como Jacques Démy e Agnès Varda, pode ser difícil. "Há uma cobrança que vem dos outros", ele conta numa entrevista por telefone, da França. " Volta e meia me pergunto por que resolvi ser cineasta. Talvez fosse mais fácil se eu fizesse outra coisa."

Démy filho agora radicaliza com Americano, seu longa - permeado de referências - que estreou sexta-feira. É um filme de estrada - feito de climas e sensações mais que de uma história sólida. Há 31 anos, sob a direção de Agnès, ele viveu um personagem de ficção no que era um documentário. Documenteur é sobre um garoto que descobre Los Angeles e seus personagens. Americano é sobre a volta do garoto, agora adulto, à cidade. Martin foi viver na França, mas regressa a Los Angeles quando a mãe morre. Nunca se deram bem e ele descobre que ela deixou seus quadros e o apartamento para uma mulher que vive na fronteira mexicana.

Martin parte em busca da estranha para tentar decifrar o enigma de sua família. O filme utiliza imagens de Documenteur e Varda lê a carta endereçada a Lola (Salma Hayek). Por que tantas referências que talvez escapem ao espectador comum? "Elas interessam a mim. Americano é um filme que fiz para colocar as lembranças onde devem estar. É meu adeus ao passado. Separo o adulto da criança de olho no futuro."

Americano nasceu como road movie. "Meu pai e minha mãe sempre foram fascinados pela América. Vi com ele um de meus filmes preferidos, Rio Vermelho (western de Howard Hawks) conta uma travessia do país. Adoto o olhar de Martin e ele está nessa jornada que é física e emocional." Mathieu analisa a própria mise-en-scène. "Começo utilizando planos distantes ou médios. A câmera segue a narrativa, que se torna cada vez mais intimista, e avança para os closes." A paleta de cores foi toda pensada - "Filmo em três países, que transformo em cores. A França é cinza azulada; os EUA, a Califórnia, verde abacate; e o México, vermelho."

Mathieu diz que o ressentimento contra a mãe é só ficção em Americano. Mas o carinho pelo pai, que morreu em 1990, é genuíno. Seu filme preferido de Jacques é La Baie des Anges, de 1963, mas ele também ama um dos últimos, Une Chambre en Ville, de 1982. "São minhas Bíblias", revela.

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