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‘O Agora que Demora’ faz Homero encontrar os homens do mundo

‘O Agora que Demora’ mistura teatro e cinema para narrar a saga dos povos e seus refugiados

Maria Eugênia de Menezes, ESPECIAL PARA O ESTADO

30 de maio de 2019 | 06h00

Em sua criação mais recente, O Agora que Demora, Christiane Jatahy parte de uma inspirada constatação: muito há de semelhante entre a clássica aventura da Odisseia e os atuais fluxos migratórios. É a partir dos pontos de contato que encontrou entre a epopeia de Homero, escrita três mil anos atrás, e a trajetória de milhares de homens e mulheres desterrados, que a diretora construiu seu espetáculo. 

Líbano, Palestina, Grécia, Brasil e África do Sul. Em viagens por esses lugares, a artista se aproximou ora de grupos de refugiados, ora de moradores de terras devastadas. Sentado diante da câmera, um ator sírio relata as circunstâncias em que foi obrigado a deixar o seu país. A equipe de filmagem o encontra morando há pouco mais de uma hora da fronteira, geograficamente muito perto de sua casa, mas muito distante da terra que deixou para trás – hoje completamente destruída pela guerra. 

Enquanto conta seu percurso, o homem também assume o papel de Ulisses – o guerreiro que partiu para lutar em Troia e, terminada a guerra, passa dez anos tentando voltar para casa. Em O Agora que Demora, a encenadora está constantemente a apagar as fronteiras entre algumas instâncias: todos os dramas pessoais são também políticos, a realidade confunde-se com a ficção, o cinema está sempre flertando com o teatro – ou vice-versa. 

Difícil definir se a obra em questão, em cartaz no Sesc Pinheiros, é precisamente um filme ou uma peça. Começa como um documentário, mas, gradativamente, outras camadas são incorporadas ao que foi gravado. Alguém toca um instrumento ao vivo, um ator que estava na tela surge presencialmente, uma cena que ocorre ao vivo é projetada como se fizesse parte do que assistimos: o presente se imiscui a todo tempo no passado.

Foi com essa linha de pesquisa, que mistura a filmagem à encenação, que Jatahy fez carreira e delimitou sua linguagem. Hoje, é a diretora brasileira de maior projeção internacional. Não por acaso, o espetáculo (cujo subtítulo é Nossa Odisseia II) é uma realização do Sesc com o Théatre National Wallonie-Bruxelas, e já tem uma ampla agenda de apresentações até 2020 pelos grandes teatros da Europa. 

Alojados em campos de refugiados, os entrevistados parecem presos em uma espécie de limbo no tempo e no espaço. Não têm mais para onde voltar e não sabem bem para onde ir. Seus dilemas se assemelham, ainda que estejam a falar de locais e situações distintas. Por incrível que pareça, o que pode aproximar essas situações de qualquer plateia é justamente o amálgama com a obra-prima de Homero. É como se a ficção pudesse dar a eles um lugar no mundo, uma identidade. Cada um pode se reconhecer como Ulisses, que quer finalmente voltar para casa, ou como Penélope, a defender o lar destruído pelos inimigos. 

Essa é a sua segunda incursão da criadora pelo livro de Homero. Em 2018, ela montou Ítaca. Mostravam-se, então, dois pontos de vista. De um lado do palco, estava, Ulisses, preso na ilha de Calipso; do outro lado, Penélope, achacada pelos pretendentes que pilham sua casa. No atual espetáculo, o cinema não surge como elemento de uma encenação maior, mas é a própria forma como se organiza a narrativa. 

O teatro, por sua vez, adquire ares de acessório, sem o poder de alterar contundentemente o que se vê na tela. A participação dos atores, misturados ao público, está diluída. Exceção é a presença da atriz Yara Ktaishe, que participou do processo de filmagem enquanto era uma refugiada no Líbano e conseguiu vir ao Brasil e unir-se ao elenco. Vê-la em cena rearranja as percepções e dá corpo às deambulações da obra. Não apenas pela força de sua experiência – de ser presa, de enlouquecer na prisão, de escapar finalmente desse ciclo de horrores. É também o seu talento de intérprete – no filme e no palco – que robustece o trabalho. Com a participação de Yara areja-se, ainda, certo caráter estetizante da tragédia filmada. Há, por exemplo, um olhar demorado sobre os rostos das meninas da África do Sul – como se a sua beleza ou inocência tivesse alguma verdade a nos dizer.

Outra intervenção que favorece a criação vem da própria diretora, que ao comentar a sua realização não se coloca como alguém que pretende conduzir o olhar da plateia. Contaminada pelo que viveu, ela não é apenas uma narradora distanciada, mas parte implicada na experiência a ser contada. O que enfraquece essa sua mirada é talvez uma ânsia de ampliar sua participação e ter uma história semelhante: Seu avô morreu em um acidente aéreo na Amazônia. O corpo nunca foi encontrado. Em busca de uma explicação para a perda familiar, ela parte ao encontro de uma tribo indígena da região. O procedimento, porém, soa um tanto ingênuo, incompatível com a complexidade do que se havia experimentado até então. 

O AGORA  QUE DEMORA

Sesc Pinheiros 

Rua Paes Leme, 195

0959400. 

5ª a sábado: 20h30; domingo: 18h às 20h30 

Preço: R$ 15 a R$ 50

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