O afeto lido como zelo e agressão

Inés Bortagaray capta a singularidade das relações familiares em novo livro

WILSON ALVES-BEZERRA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2014 | 02h42

A escritora uruguaia Inés Bortagaray (1975) acaba de fazer sua estreia no Brasil. Nascida em Salto Oriental - a mesma cidade do contista Horacio Quiroga (1878-1937) - Um, Dois e Já guarda com o conterrâneo a preferência pela brevidade e a oscilação entre o realismo e o devaneio. Bortagaray conta a história de uma viagem de férias em família, na virada dos anos 70 para os 80, no Uruguai, numa perspectiva infantil. No banco da frente, o pai e a mãe; atrás, os quatro filhos ainda pequenos, disputando o direito à janela. A narradora do relato é personagem secundária da história que conta: entre os irmãos, ela é a segunda mais jovem. A particularidade está no modo de narrar. O livro é composto de uma série de episódios ou quadros entrecortados pelo adormecimento da menina, por um vômito inesperado, por uma lembrança. Tudo contado com delicadeza e lirismo.

Kafka, com seu célebre A Próxima Aldeia, foi o escolhido para servir de epígrafe à narrativa: no breve relato do checo, a angústia quanto à impossibilidade de cumprir-se uma travessia e chegar-se à próxima aldeia. Dele, a narradora de Bortagaray guarda o fascínio pela figura do pai e o medo irracional de que lhe aconteça algo: "O assento está reto. Meu pai é reto. Dirige depressa, mas com cuidado. Travo o pino da porta dele. Agora sim, ele está a salvo. Eu também, porque meu pai não vai despencar na estrada, e vou continuar a ter pai, porque ele não vai despencar". Entretanto, o relato inverte a angústia pela travessia impossível para um desejo de prolongar o deleite por nela estar: "Às vezes a viagem é tão comprida que me acostumo, e depois não quero chegar. Por mim, poderíamos ficar aqui para sempre, para sempre nesse banco de couro bege, com esse cheiro de pijama no ar e migalhas de empanada entre as pernas".

Um dos grandes achados do livro reside nas descrições desnaturalizadas dos objetos e cenas, que transformam a viagem numa sucessão de quadros surpreendentes, como o desenho dos postes que passam diante dos olhos da menina, logo nas primeiras páginas. A surpresa pode vir tanto do que é visto quanto de um certo deslumbramento com a linguagem, pois a pequena protagonista se encanta também com as palavras: "Quando digo arma branca imagino uma bela faca branca com asas, como um anjo especialmente loiro".

Em meio aos devaneios da garota, o leitor percebe os ecos da história da época: a guerra das Malvinas, a ditadura uruguaia e o gosto do irmão mais velho pela política. Tudo dito de modo sutil, como se houvesse no livro não apenas uma linguagem e um olhar infantis, mas também uma escuta de criança, com o que isso implica de astúcia e ingenuidade. Ao terminar as breves páginas que compõem o relato, fica a imagem da jovem se confrontando com o mundo com os recursos de que dispõe: sua imaginação, sua capacidade de negociação, suas pernas feias e sua família.

A autora capta das relações familiares o que elas têm de singular: o afeto que se manifesta como zelo ou agressividade, de modo imprevisível. O episódio que melhor demonstra isso é quando todos se reúnem para uma foto, e para tanto testam o disparo automático da câmera. Depois de ficarem tensos diante do olho eletrônico, se dispersam: "Todos respiramos e nos soltamos rapidamente e vamos andando para o carro com algo de pudor e algo de carinho".

WILSON ALVES-BEZERRA É PROFESSOR DA UFSCAR E AUTOR DE DA CLÍNICA DO DESEJO A SUA ESCRITAUM, DOIS

E JÁ

Autora: Inés Bortagaray

Tradução:

Miguel Del

Castillo

Editora: Cosac Naify

(96 págs.,

R$ 26)

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