O adeus do mestre Antônio Poteiro

Grande nome do primitivismo brasileiro morreu aos 84 anos

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2010 | 00h00

As artes visuais perderam um ícone da pintura primitivista brasileira com a morte de Antônio Poteiro. O corpo dele foi enterrado às 19 h de anteontem no cemitério Jardim das Palmeiras. Aos 84 anos, estava internado há mais de uma semana no Hospital e Maternidade Jardim América, em Goiânia, e lutava contra um câncer. Poteiro morreu na madrugada de terça-feira após parada cardiorrespiratória. O hospital não deu mais informações a pedido da família do artista.

Nascido em Santa Cristina da Posse, em Portugal, com o nome de Antônio Batista de Souza, ele era considerado um dos mestres da pintura primitiva brasileira.

No início da carreira trabalhava com esculturas e cerâmica, com destaque para animais, máscaras, bonecos e figuras religiosas, como uma série desenvolvida por ele sobre deuses. Ainda na década de 1960, quando criava suas esculturas, ganhou o apelido de Antônio Poteiro. Entre os trabalhos mais conhecidos do artista, O Abraço, Presépio da Tartaruga e Deus Animal.

Nos anos 1970, incentivado por Siron Franco e Cléber Gouvea, começou a pintar. Autodidata, desde a década anterior já realizava exposições coletivas e individuais pelo País e no exterior. Entre elas, destaque para bienais na Itália e outras mostras em Portugal, Cuba, Estados Unidos, Alemanha e França. No Brasil, o artista participou das edições de 1981 e 1991 da Bienal de São Paulo.

Poteiro ganhou reconhecimento ao longo de sua carreira conquistando diversos prêmios, como o concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA), na categoria Esculturas, em 1985, e no Salão Nacional de Arte do Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte, em 1982.

Anteontem, Poteiro foi homenageado no plenário de Brasília pelo senador Marconi Perillo (PDSB-GO), com o seguinte discurso: "Ele deixará certamente uma lacuna, não apenas para o mundo cultural goiano, mas também do Brasil. Pintor e escultor consagrado, teve suas obras, centenas delas, adquiridas por colecionadores, não só do Brasil, mas de diversas partes do mundo."

Figura central de documentários como Antônio Poteiro: O Profeta do Barro e das Cores (1983), dirigido por Antônio Eustáquio, e Antônio Poteiro (1991), de Ronaldo Duque, o artista plástico imprimiu um estilo muito próprio tanto na pintura quanto na escultura, recebendo em seu site oficial depoimentos carinhosos de nomes de peso, como Frederico Morais, Roberto Pontual, Ferreira Gullar, Wilson Coutinho, Walmir Ayala, Georges Racz, Olívio Tavares de Araújo e Brasigóis Felício. Segundo este, "a impressão que nos transmitem as pinturas e a cerâmica de Antônio Poteiro é a de que foram extraídos do cerne da vida, transfigurados em arte por um impulso criador ao mesmo tempo ingênuo e requintado... Antônio Poteiro é um inspirado poeta das cores e do barro". Para Racz, "Poteiro sonha as suas telas, soluciona o espaço, as cores e as figuras, como só uma criança consegue... pintura poderosa, abençoadamente bela".

Poteiro deixa mulher e três filhos, um deles o ceramista Américo Souza Neto.

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