O adeus do ''enfant terrible''

Este texto tem uma missão extraordinária para suas breves linhas: unir, pela significação da ausência, a preposição "sem" ao substantivo enriquecido de significações históricas "moda" e ao nome próprio mais criativo da moda dos últimos tempos: "Alexander McQueen", que saiu de cena em 2010.

Tarcisio D?Almeida, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

Poucos nomes se alçam à categoria de gênios; sejam eles na música, na ciência, na literatura, nas artes plásticas. Na moda também há alguns nomes que traduzem o espírito de genialidade ao propor visões estéticas para a mesma. E na moda contemporânea, do final do século 20 e início do 21, o jovem estilista britânico Lee Alexander McQueen é o criador mais emblemático que confere a assinatura de autoral a tudo o que ele fez e propôs à moda. As concepções de imagens idealizadas em seus desfiles ficarão eternizadas no imaginário coletivo do mundo da moda e para além desta. Sua genialidade propunha e enxergava a moda como símbolo criativo das tensões das sociedades.

Com o suicídio de McQueen, aos 40 anos, no dia 11 de fevereiro, em Londres, o universo da moda mundial sofreu mais um importante desfalque no ano de 2010. Deixa não somente os apreciadores da moda britânica como também de todo o mundo em estado de choque e com a sensação de um vazio e inquietação em relação ao futuro.

McQueen, durante sua curta mas produtiva carreira, é um capítulo essencial para compreendermos o momento inicial da história da moda contemporânea. Tornou-se, de certa forma, um dos nomes que podemos, sem excesso algum, nomear como um dos marcos divisores do tempo para a moda contemporânea, o que o torna sinônimo da mesma, entre a transição de séculos. Um tempo em que a sua genialidade respondeu tanto às sensibilidades, às imaginações, às apostas tecnológicas e aos mistérios criativos tão desejados pelos criadores de moda, mas que nem todos conseguem desempenhar como McQueen conseguia.

Aliás, tempo esse que era intemporal no processo criativo do criador. Ele tanto direcionava seus spots criativos para o passado e o ressignificava, como também visionava o futuro na/da moda, não somente na utilização de matérias primas ultra tecnológicas como também nas sugestões de peças incrivelmente construídas na fruição estética do fazer moda com inovação e alfaiataria impecáveis e de forma constante. E ele tinha pleno domínio de tudo isso. Foi discípulo do famoso berço dos melhores alfaiates de moda masculina do mundo, a tradicional rua de lojas Savile Row, no bairro de Mayfair, na região central da capital inglesa.

McQueen poderia - e poderá sempre - ser nomeado não somente como "fashion designer" (forma como a língua inglesa adjetiva quem cria moda), mas, sobretudo, como um autêntico e irrepreensível criador autoral e conceitual. Costumeiramente chamado de ícone (prefiro lembrá-lo como "enfant terrible" da moda inglesa), ele dramatizou e conferiu traços artísticos à moda, deixando-a se contaminar com outras linguagens e expressões artísticas, como o cinema, por exemplo. Representa a última linhagem de criadores que estabeleceu, em primeiro plano, a verve criativa do autêntico criador em detrimento das exigências e ditames propostos pelo mercado, como fazem a maioria dos chamados diretores de criação. Também pode se destacar que as apresentações de suas coleções nunca se satisfaziam apenas como desfiles com amostragens de looks, mas sim performances completas encaixando-se no que compreendemos hoje por arte contemporânea, expressa via performances, disputadas não só pelo métier da moda, assim como por artistas de todo o mundo.

Desejava sempre o estético nas construções de imagens únicas para sua moda. Talvez por isso, despertou as atenções e os reconhecimentos do maior órgão do setor da indústria da moda e têxtil da Grã-Bretanha. Foi laureado diversas vezes. Em dezembro, McQueen recebeu o prêmio póstumo Outstanding Achievement in Fashion Design do BFA.

O que se fez antes, durante e - a partir de agora - a era pós-Alexander McQueen será um marco histórico e estético para a moda. A própria História da Moda e seu natural distanciamento nos confirmará isso daqui a algum tempo. Não somente pelas suas pesquisas bem realizadas dos temas, inspirações, de suas coleções, como a última batizada de "Atlântida de Platão" (desfilada em outubro de 2009 com as apostas para o verão 2010) e inspirada na mitologia grega e na cidade perdida. A abrupta interrupção do criador o impediu de estrear sua segunda marca, a McQ, que seria apresentada na Mercedes-Benz Fashion Week, em Nova York, e que teve como inspiração, coincidentemente, a banda de rock Nirvana e em especial o vocalista Kurt Cobain.

McQueen sempre foi a tradução fiel de todos aqueles adjetivos que ansiamos em um criador de moda: livre, autoral, despojado, imaginativo, criativo, estético. Podemos ainda dizer que ele era o verdadeiro estilista da imaginação fantástica; esta que desprende as pessoas pelas incomensuráveis sensibilidades. Com ele podemos testemunhar que a moda tem livre passe entre os universos artísticos e sinestésicos da humanidade. Suas visões (ou seriam idealizações o melhor termo?) nos brindavam, a cada desfile de cada estação, com aquilo que esperamos nos verdadeiros criadores-autorais: a autonomia e a liberdade de espírito criativo de (re)propor a moda na vida contemporânea.

TARCISIO D"ALMEIDA É PROFESSOR E PESQUISADOR DO CURSO DESIGN DE MODA DA ESCOLA DE BELAS ARTES DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (EBA-UFMG)

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