O adeus de um especialista em Mozart e na música checa

CHARLES MACKERRAS 1925 - 2010

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2010 | 00h00

Grande intérprete de Mozart e responsável pelo resgate das óperas do checo Leos Janácek, o maestro australiano Charles Mackerras morreu na noite de quarta aos 84 anos, vítima de um câncer. "Ele era uma força da natureza, um verdadeiro homem de teatro, que ensinou a todos como honrar as intenções de um compositor com personalidade, drama e entusiasmo", disse ontem sobre ele o maestro Antonio Pappano, diretor musical da Royal Opera House de Londres.

Mackerras nasceu na Austrália - e por lá, nos anos 70, foi responsável pela programação de abertura da Ópera de Sydney. A maior parte de sua carreira, no entanto, foi vivida entre a Inglaterra e a República Checa. Ele dirigiu orquestras importantes como a Sinfônica da BBC e a Philarmonia, além da English National Opera. No Covent Garden, casa real de ópera, atuou como convidado ao longo de mais de vinte temporadas. Na Alemanha, dirigiu a Ópera Estatal de Hamburgo e, nos EUA, era regente emérito e laureado da Ópera de São Francisco.

Seu trabalho com a ópera lhe rendeu diversos prêmios - em especial no resgate da obra de Janácek. Na juventude, Mackerras foi para Praga estudar com Vaclav Talich, com uma bolsa do governo britânico. Lá descobriu a paixão pela música checa, que o acompanharia por toda a vida - seu último e elogiado álbum, lançado no mês passado, reunia poemas sinfônicos de Dvorák, interpretados à frente da Filarmônica Checa, da qual foi principal regente convidado de 1997 a 2003.

Nos anos 70, com a primeira montagem britânica de Katya Kabanova, chamou a atenção do mundo europeu para as óperas de Janácek - e, ao longo dos anos, tornou-se autoridade neste repertório, inclusive ajudando na preparação de edições de referência de partituras.

Da mesma forma, ganhou status de autoridade com Mozart, fruto de pesquisa desenvolvida ao longo de toda a vida sobre as técnicas de interpretação dos séculos 17 e 18. Em 1991, quando o mundo relembrou os 200 anos de morte do compositor, ele foi convidado para reger Don Giovanni no Teatro Estatal de Praga, onde a ópera havia estreado mais de dois séculos antes.

Entre suas principais gravações estão ciclos com todas as sinfonias e os concertos de Mozart, as integrais sinfônicas de Brahms e Beethoven, com a Scottish Chamber Orchestra, e as principais óperas de Dvorák e Janácek, gravadas tanto na República Checa como em Londres.Também dedicou importantes trabalhos à música de Haydn e a compositores britânicos, como Benjamin Britten, de quem gravou a pouco executada Gloriana. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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