O adeus ao poeta e cientista do samba

Amigos e familiares se despediram em cerimônia privada do autor de Ronda e Volta por Cima, morto no domingo

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2013 | 02h08

Não teve Ronda nem aplauso, apenas silêncio. No adeus ao zoólogo e compositor Paulo Vanzolini, ontem, às 17 horas, no Cemitério da Consolação, cerca de 200 pessoas assistiram compungidas e caladas ao seu enterro. Havia alguém com um cavaquinho, mas não se atreveu a tocar no instrumento. Morto na noite de domingo aos 89 anos em São Paulo, Vanzolini deixou canções como Ronda, Praça Clóvis e Volta por Cima, que se tornaram ícones de São Paulo. Ele passara mal na quinta-feira e fora internado na UTI do Hospital Albert Einstein com pneumonia extensa, que logo evoluiu para uma septicemia. Às 23h35 de domingo, não resistiu.

Ao lado da viúva, a cantora Ana Bernardo, e dos filhos do compositor, muitos músicos, parentes (como o cartunista Paulo Caruso, seu genro), amigos e colegas da USP se reuniram para o derradeiro adeus ao compositor, entre eles o ex-ministro Celso Lafer, o maestro e arranjador Eduardo Gudin, o percussionista João Parahyba e a cantora Cristina Buarque.

Muitos entre os presentes mostravam certa revolta com o fato de Vanzolini não ter recebido um velório público. "Para que serve a Assembleia Legislativa? Para que serve a Câmara? Um homem com esse porte, essa importância para São Paulo, um homem desses deveria ter sido velado em um lugar público", lamentou o pesquisador e jornalista Assis Ângelo. "Foi um desejo da família, mas a cidade de São Paulo gostaria muito de ter se despedido dele", afirmou o produtor José Mauro Gnaspini, um dos curadores da Virada Cultural.

O compositor faria um show na sexta e no sábado no clube Casa de Francisca, no Jardim Paulista, para ajudar a manter o local. Também se apresentaria na Virada Cultural, o quarto no evento, no dia 19, domingo, às 15 horas, no Pátio do Colégio. A organização espera tornar a data um momento de tributo ao compositor, convidando cantores e instrumentistas próximos a ele.

O samba-canção Ronda, composto por Vanzolini, foi gravado por Inezita Barroso em agosto de 1953, sete anos depois de composto, e virou um dos hinos simbólicos de São Paulo. "Samba é paciência", sempre repetia Vanzolini, que também foi um dos mais graduados intelectuais entre os sambistas brasileiros de todos os tempos: fez doutorado em Harvard, era pesquisador do Instituto de Zoologia, herpetólogo (especialista em répteis) e professor emérito da USP. Foi também o autor da lei que criou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Nascido no Cambuci, no dia 25 de abril de 1924, a dupla militância (na música popular e na ciência) lhe rendeu elásticas relações: Chico Buarque gravou duas canções do primeiro disco com músicas de Vanzolini; o médico e escritor Dráusio Varella foi seu aluno na USP; e cientistas do quilate de Theodosius Dobzhansky, Emest Mayr e Aziz Ab'Saber eram seus amigos. Foi parceiro de Eduardo Gudin, Elton Medeiros, Paulinho Nogueira, entre muitos outros.

Começou a compor seus sambas tipicamente paulistanos ainda no início dos anos 40. A obra é pequena, aproximadamente 65 canções. Delas, 52 podem ser conhecidas nos quatro CDs da caixa Acerto de Contas, que a gravadora Biscoito Fino lançou em 2003. Em 2011, a gravadora EMI lançou Onze Sambas e uma Capoeira, gravações recuperadas do acervo da antiga Copacabana, do seu disco lançado em 1967. "Vanzolini era uma personalidade fascinante, uma pessoa magnética, cativante. Era cientista, mas também um boêmio, um homem da noite. E foi um magnífico intérprete da noite", afirmou o ensaísta Gabriel Priolli.

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