O açougueiro, para lembrar Chabrol

O açougueiro, para lembrar Chabrol

Canal Eurochannel homenageia diretor com mesa-redonda e exibição de filme

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2010 | 00h00

Claude Chabrol, que morreu dia 12, aos 80 anos, ganha homenagem do Eurochannel. O canal europeu da TV paga exibe um programa duplo dos mais atraentes. Começa com Grande Carrossel - O Que Motiva Claude Chabrol?, que é uma mesa-redonda em que ele fala de vida, e cinema, com a ex-mulher, Stéphane Audran, com o filho, Thomas, e com dois atores aos quais ofereceu belíssimos papéis, Michel Bouquet e Sandrine Bonnaire. Na sequência, passa O Açougueiro (Le Boucher), o longa de 1970 que, se fosse para escolher somente um filme do grande diretor, seria o favorito. O mesmo programa poderá ser visto em dois horários (confira o serviço).

Chabrol foi casado por 16 anos com Stéphane Audran. Não há exagero em dizer que ela interpretou os filmes que o fizeram ressurgir como autor. Integrante da geração nouvelle vague, ele havia conhecido dois retumbantes sucessos - de público e crítica - logo no começo da carreira, com Nas Garras do Vício e Os Primos, ambos interpretados por Jean-Claude Brialy e Gérard Blain, no fim dos anos 1950. Seguiu-se uma fase errática, da qual Chabrol emergiu em 1967 com O Escândalo, com Tony Perkins, e em 1968, com As Corças, com Stéphane e Jacqueline Sassard.

No biênio 1969/70 ele consolidou seu prestígio com uma série de grandes filmes - A Mulher Infiel, em que Stéphane e Bouquet estão geniais; A Besta Deve Morrer, O Açougueiro e Trágica Separação, os dois últimos de novo com Stéphane Audran. Todos eles tratam da burguesia de província, que o autor descreve - e critica - com virulência. Os críticos, por isso mesmo, disseram que ele era o Balzac do cinema e os filmes compunham a sua "comédia humana". Em Le Boucher, Stéphane é professora numa pequena cidade de província. Liga-se ao atormentado açougueiro Jean Yanne. Crianças - seus alunos - começam a ser misteriosamente assassinadas. É o que você pensa, sim.

Embora Chabrol admirasse - e até tenha coescrito, com Eric Rohmer, um livro sobre Alfred Hitchcock -, seus policiais não seguem a trilha do mestre do suspense, como os de François Truffaut. Chabrol ligava-se muito mais no fatalismo de Fritz Lang, com sua noção do destino trágico (e asfixiante), do qual os personagens, mesmo lutando, não conseguem fugir. Próximas à cidade em que se passa a ação, existem cavernas com inscrições primitivas em suas paredes. Precedendo o desfecho, há um longo - e revelador - diálogo. As duas coisas estão conectadas. É um filme poderoso. E os atores - a atriz - não poderiam ser melhores.

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