O achado de Damásio

António Damásio é um dos mais respeitados neurocientistas e neuroescritores do mundo. Desde O Erro de Descartes, vem desenvolvendo uma linha de pesquisa e pensamento bastante original, mostrando cientificamente por que corpo e mente não se separam como água e óleo. É um dos expoentes da "terceira cultura", capaz de recorrer a pensadores das chamadas humanidades, como Spinoza ou, no novo livro, William James, para inspirar suas hipóteses. E, no entanto, ao contrário de tantos intelectuais com status semelhante - ou mesmo, em verdade, com status bem abaixo -, Damásio mudou algumas de suas ideias mais importantes e, atenção, por causa de achados alheios que o obrigaram a tanto. Como dizia Keynes, se os fatos mudam, as ideias também precisam mudar.

O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h09

Esse é apenas um dos motivos para que não se deixe de dar ao novo livro de Damásio, E o Cérebro Criou o Homem (título original Self Comes to Mind: Constructing the Conscious Brain; editora Companhia das Letras, tradução Laura Teixeira Motta), a importância que merece. Como vivemos em tempos cínicos, e como Damásio é o primeiro a alertar que ainda conhecemos pouco sobre o complexo funcionamento cerebral, o risco é grande. Afinal, o que ele está dizendo agora bate ainda mais de frente com o senso comum, segundo o qual o coração toma decisões mais autênticas e a razão só ajuda quando não o atrapalha. Também nas artes e até em comentários esportivos somos obrigados a ouvir que "o corpo sabe antes", como se qualquer nota de consciência fosse desafinar o gesto plástico e memorável da expressão pessoal.

Um dos conceitos mais caros de Damásio era o da "consciência central", ou seja, uma série de atividades cerebrais que regulariam o funcionamento do corpo e das emoções sem participação alguma da "consciência ampliada", aquela exercida pela linguagem e pelo raciocínio abstrato no córtex frontal. O que ele diz no novo livro é que, embora grande parte das ações e reações seja fisiológica, comandada pela homeostase, autônoma em relação às vontades do nosso eu, da nossa mente consciente (ou "self autobiográfico", como diz), a interação entre essas duas camadas é muito mais rica e sutil do que ele supunha. Declaradamente, diante de novas pesquisas de imagem neuronal e de pacientes com lesões cerebrais, ele acaba de abandonar esse dualismo. "Hoje em dia vejo mais volatilidade na abrangência da consciência", escreve. "Os níveis de consciência flutuam durante uma situação."

As novas pesquisas vêm mostrando o papel muito maior de instâncias intermediárias - entre a recepção das informações do corpo e a elaboração da consciência verbal - do que se acreditava antes. No alto do tronco cerebral, no tálamo e nos córtices posteromediais, especialmente, as medições mostram atividades em frações de segundos que embutem muitas vezes o resultado do aprendizado passado (como jogador que treina bicicletas a semana toda para executá-la de "improviso" no domingo). O corpo não age sozinho; trabalha com predisposições, preconceitos, modulações e juízos aos eventos que o provocam o tempo todo. Moralidade, raciocínio e imaginação também atuam nas reações físicas às diversas situações, ainda que em "segunda natureza".

A mente, nos termos de Damásio, faz um "documentário multimídia" para o corpo, editando o processo de tomada de decisões. Ela chega depois, evolutivamente, mas faz muita diferença... Somos seres biológicos, sim, mas também deliberamos orientações para nós mesmos, com imagens e mapas que influem até nas instâncias mais sentimentais e intuitivas. Com o tempo, teremos de deliberadamente mudar de ideia, como Damásio. Entre ilusões de livre-arbítrio e fatalismos subdarwinistas, ser humano é ser pensante.

Clássicos & comerciais. São os 110 anos de Drummond que serão comemorados no ano que vem, não o centenário. O centenário relevante da literatura brasileira em 2012 é o de Nelson Rodrigues, e já há montagens na praça por esse motivo.

Esta coluna da semana passada, sobre clássicos, motivou muitos e-mails de leitores e comentários no blog. Maria Heloisa Nogueira, professora, corrige um deslize meu na nota sobre Almodóvar (deixei escapar "um dos poucos cineastas que vê", quando o correto é concordância no plural, "um dos poucos cineastas que veem"), entre elogios envaidecedores. Jorge Ubirajara Proença conta que descobriu Proust aos 70 anos e está acompanhando a reedição volume a volume de Em Busca do Tempo Perdido pela editora Globo, mas, assim como outras pessoas que conheço, está irritado com o atraso. O quarto volume já tinha demorado, mas acabo de ser informado de que o quinto (A Prisioneira) sai ainda este ano. Outra professora, Perla Maria da Rocha, diz que vai mostrar o texto aos alunos do cursinho, e quero registrar que nem todo aluno é afastado dos clássicos pela chatice escolar (eu mesmo li meu primeiro Machado, Quincas Borba, por obrigação). E Leonardo Lourenço, historiador, chama atenção também para o lançamento de Lembranças de 1848, do grande Tocqueville, num país que sempre publicou mais marxistas e conservadores do que liberais.

De la musique. Acho curioso ler que a Tropicália "ensinou" cantores ditos sofisticados a dar atenção para canções ditas bregas. Na bossa nova, principalmente como João Gilberto, esse já era um gesto comum, e antes ainda era melhor porque não havia essa distinção entre MPB de um lado e brega do outro - era tudo popular na voz de um Orlando Silva ou Mario Reis. Isso sem contar que o gesto modernista em todas as artes sempre foi o do tal "high & low", de mesclar registros "eruditos" e "populares". Toulouse-Lautrec está nos grandes museus de arte com ilustrações feitas para cartazes do Moulin Rouge. Voltando à canção brasileira, é fato que um Caetano Veloso deu outra vida a músicas melosas como as de Peninha, mas ele não inventou essa atitude. Mais importante, suas interpretações quase sempre fazem alterações determinantes no andamento, no arranjo, na dicção.

Tudo isso para dizer que Marisa Monte, a melhor voz surgida nos últimos 20 anos na cena nacional, perdeu o tom, confirmando que o tribalismo amesquinhou sua carreira. Ela sempre oscilou entre esses repertórios, mas no novo CD, O Que Você Quer Saber de Verdade, os sinais de apuro e ousadia quase desapareceram, apesar da afinação e do acabamento. Tudo soa adocicado, repetitivo, juvenil. Prefiro uma Paula Fernandes, que faz a canção sertaneja ou rural e romântica com autenticidade e competência, inclusive gravando talentos como Renato Teixeira e Almir Sater, para os quais a classe "culta" da MPB jamais deu bola.

Também Maria Rita, a filha de Elis Regina, caminha para uma precoce estagnação em novo CD, Elo. O conjunto das versões, mesmo de canções como A História de Lily Braun, de Chico Buarque (sobre música de Kurt Weill), parece "déjà entendu", com o mesmo tipo de arranjo de sempre. Mais importante, a voz de Maria Rita, de timbre tão bonito, continua se arrastando, perdendo o pique, o swing, como acontece flagrantemente em Nem um Dia, de Djavan (até porque não há como não ter a original em mente). O que sua mãe parecia elétrica, ela parece entediada.

Ambas, claro, recebem cem vezes mais atenção que o novo Dori Caymmi, Poesia Musicada, com letras de Paulo César Pinheiro. Dori disse que fez o disco respondendo à sugestão do pai, Dorival, para que fizesse canções mais melodiosas. Marinhagem é uma delas; outra, Velho do Mar, que é justamente sobre seu pai, ainda inigualável melodista.

Miniconto. Seu sonho era ser o melhor dos aproveitadores. Chegou a pensar em lançar um movimento, o "aproveitismo", para definir e aproximar pessoas como ele. Pessoas que usam a expressão "aproveitar o farol", acelerando o carro diante do sinal amarelo em vez de reduzir; "aproveitar o elevador", correndo para deter as portas com as mãos e entrar mesmo com o alarme de limite de peso apitando; "aproveitar a deixa", assediando a mulher que por qualquer motivo tenha olhado ou sorrido em sua direção ou esteja desacompanhada ou triste, mesmo que comprometida; "aproveitar a brecha", cobrando muito mais por um produto importado sob alegação de que são os impostos, embora ele mesmo os sonegue; "aproveitar a chance", falando mal do colega que está em férias para se candidatar ao seu lugar; e assim por diante. Mas olhou ao redor, enquanto dirigia pelas ruas de São Paulo, e viu que seu movimento teria potencial de inúmeros seguidores, virtuais ou não, e desistiu. Não seria proveitoso.

Por que não me ufano. O caso Carlos Lupi segue um padrão histórico brasileiro que, a depender da perspectiva, tem desde uma idade superior a 500 anos (logo depois da descoberta portuguesa) até uma superior a 25 anos (com a abertura democrática e o governo Sarney, aquele que nunca termina), mas que nos últimos dez anos se escancarou até o despudor máximo (graças ao "é praxe no Brasil" do presidente Lula no auge do mensalão). Ele é nomeado para um alto cargo público em função do partido a que pertence, o qual ajudou a financiar a campanha vitoriosa da aliança governista em troca do poder de legislar e licitar em causa própria, e age todos os instantes como se não fosse um homem público. Viaja em transporte de amigo empreiteiro, como Sarney, e usa as diárias para compromissos partidários, ou seja, para interesses particulares, não oficiais. E monta uma rede de favorecimentos a familiares e ONGs - as quais, como as esportivas que até um partido chamado "comunista" patrocina, desviam o dinheiro que deveria ir para comunidades carentes. (Comunista não come criancinha, mas criancinhas em geral não comem sob o comunismo.)

Nossa república é cada vez menos governamental, cada vez menos pública: ela é um vasto mundo privado que o dinheiro público sustenta. Enquanto isso, o ano vai terminando e o governo Dilma nem sequer começou.

Aforismo sem juízo

A cabeça tem razões que o coração conhece.

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