O absurdo do conflito num filme de visão unilateral

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2012 | 03h07

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

O nome Beaufort é o de um castelo dos tempos das cruzadas, tomado pelos israelenses aos árabes em 1982. A fortificação, do século 13, ocupa posição estratégica entre Israel e Líbano. Assim, foi ocupada pelo exército israelense durante anos, até a retirada, em 2000.

O filme de Joseph Cedar restringe-se a esse ambiente. Tenta mostrar o absurdo da guerra por apenas um ângulo, o dos israelenses. Não, há, porém, ufanismo nessa visão unilateral. Pelo contrário, o tom é mais para o crítico, enfatizando a falta de sentido das ações militares - pelo menos quando vistas fora do seu contexto geopolítico. Nunca é demais lembrar a frase de Clausewitz, o grande teórico bélico: a guerra é a continuação da política por outros meios. Frase a meditar, sempre, para evitar o simplismo, sem porém esquecer os malefícios da guerra.

Mas, enfim, a opção de Cedar é a do olhar interno, o de um grupo de homens liderados por um jovem oficial, que precisa abandonar uma posição estratégica e destruí-la para que o inimigo dela não tire proveito. Inimigo que, a exemplo do que acontece num texto clássico como O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati (filmado por Valerio Zurlini, em 1976), jamais aparece.

Interessante é notar o corte realista da narrativa, mas sublinhada por tantos toques de absurdo que termina por se inclinar ao surreal. É o caso dos bonecos colocados à guisa de vigias, já que a patrulha não dispõe de soldados suficientes para defender posições. Outro aspecto: durante o tempo da ocupação, o exército foi construindo uma intrincada rede de túneis que servem tanto de proteção como de labirinto para os próprios soldados. É como se fossem tecendo uma rede na qual eles mesmos se enroscam - alusão bastante clara à política externa do país em relação a seus vizinhos.

Beaufort é um filme sobre a guerra que não se empenha em mostrar combates ou grandes gestos de heroísmo ou covardia. Mostra a guerra pelo ponto de vista dos soldados nela envolvidos, cuja ideologia, a partir de determinado momento, pode ser resumida a um único verbo: sobreviver. Mostra também como os cordões das ações bélicas são movidos de longe, por interesses que muitas vezes contradizem os dos soldados - o que dá mais uma vez razão à lúcida meditação de Clausewitz. Não se entende a guerra fora do contexto da reflexão política. E entender a guerra não significa desculpá-la.

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