Eric Gaillard/Reuters
Eric Gaillard/Reuters

O abre-alas da mostra

Manoel de Oliveira fala de O Estranho Caso de Angélica, que abre amanhã a tradicional maratona de cinema

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2010 | 00h00

Manoel de Oliveira gosta de contrariar. Próximo dos 102 anos de idade (completa no dia 11 de dezembro), o cineasta português não só continua em atividade como mantém a pródiga média de um filme rodado por ano - o mais recente, O Estranho Caso de Angélica, abre amanhã, para convidados, a 34.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no Auditório do Ibirapuera.

Ele seria o convidado de honra da cerimônia, mas, por conta da manutenção em seu marca-passo, o médico recomendou um descanso de oito dias. Mesmo assim, Oliveira não recusou o convite e virá para os últimos dias da Mostra, no final do mês. Em seu lugar no evento de abertura, estarão dois atores do elenco: Ricardo Trêpa, que também é produtor e neto do cineasta, e a brasileira Ana Maria Magalhães. Em comunicado ao evento, Oliveira disse sentir-se louvado e feliz por ter seu filme escolhido para abrir o evento.

Não é a primeira vez que ele vem a São Paulo, mas O Estranho Caso de Angélica tornou-se particular em sua carreira. Planejado entre os anos 1949 e 1952, o filme não foi realizado por conta da censura fascista da época. "Era, para eles, algo como que fora do quadro, justamente o que o filme tinha de mais interessante", disse Oliveira ao Estado, em entrevista realizada por e-mail.

Tal desajuste é simplesmente o que o longa tem de mais fascinante. Trata-se da história de Isaac (Trêpa), jovem fotógrafo que certa noite recebe uma ligação urgente de uma família rica para tirar a última foto de Angélica (Pilar López de Ayala), a filha do casal que morrera poucos dias depois de seu casamento. Ao focar a moça estendida em um divã, porém, Isaac leva um susto: apenas no visor de sua máquina fotográfica, a bela Angélica aparece viva e sorridente. É o suficiente para o rapaz se tornar obcecado pela moça, perseguindo aquela imagem na casa onde ela morava e também no túmulo onde foi enterrada.

No momento em que a tecnologia cinematográfica avança a passos largos, Manoel de Oliveira persiste em novamente ser contrário e, para retratar o vulto revivido de Angélica, inspirou-se em técnicas ancestrais, da época do cinema mudo, no ilusionismo criado por Lumière, Méliès, Griffith. Assim, a moça é visualizada por meio de uma imagem levemente turva.

Oliveira trata do assunto também no filme, especialmente no papel vivido por Ana Maria Magalhães, uma engenheira brasileira que defende uma tese sobre a antimatéria, embate da modernidade contra o antigo. Uma contradição, aliás, festejada pelo próprio Oliveira.

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