O abismo prateado colhe elogios

Karim Aïnouz comenta seu longa que passou na Quinzena dos Realizadores

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2011 | 00h00

CANNES

Karim Aïnouz está adorando a Quinzena dos Realizadores. Ele já exibiu aqui em Cannes seu primeiro longa, Madame Satã, na mostra Um Certain Regard. "A seleção oficial (que inclui a competição e Um Certo Olhar) tem uma solenidade muito maior. Você se sente mais escrutinado. A Quinzena é muito mais território da cinefilia, do amor pelos filmes. O olhar do público e dos críticos tende a ser mais generoso."

Essa generosidade começa a se manifestar nas críticas. The Hollywood Reporter, por exemplo, elogia o filme e o percurso da personagem interpretada por Alessandra Negrini. Ela se chama Violeta e é a protagonista de O Abismo Prateado.

Quer dizer, é preciso relativizar esse papel da protagonista. Karim sabe o filme que fez. Ele começa o filme com um homem, o marido que vai abandonar Violeta; prossegue com essa mulher que vive uma crise ao longo de uma noite e talvez vá ressurgir pela manhã; e termina com um casal especial, pai e filha, que Violeta encontra e que partem não se sabe para onde.

"Queria dar ao filme essa estrutura, essa transferência de personagens. Na verdade, era uma das coisas que mais me interessavam quando o projeto começou a tomar forma", explica o diretor. O Abismo nasceu de uma proposta que lhe foi feita pelo produtor Rodrigo Teixeira. Ele perguntou ao cineasta se estaria interessado em fazer um filme inspirado nas músicas de Chico Buarque. Karim retrucou - poderia ser Olhos nos Olhos? O ponto de partida é esse homem que parte sem ter coragem de olhar a mulher nos olhos, na despedida. Tudo vem daí.

O Abismo Prateado não é nem pretende ser uma ilustração da canção de Chico. Isso é bom que fique claro para evitar o desapontamento do público. "A canção do Chico é sobre um retorno, e eu não queria isso. Queria o conceito do olho no olho, mas não o rancor que encontro na maioria das interpretações da música." Justamente para evitar esse rancor ("Olhos nos olhos/ Quero ver o que você diz/ Como suporta me ver tão feliz...") é que a música, quando aparece, é na voz de um novo talento de São Paulo, Barbara Eugênia. "É uma voz jovem, sem exagerada carga dramática e o arranjo também é diferente", define o diretor.

Rapidez. Karim nunca fez um filme tão rápido. Entre a proposta e a finalização, O Abismo Prateado demorou um ano e dois meses. "É bom que os filmes exijam tempo. Ficam mais maduros", ele avalia. Mas a rapidez não significa que o filme foi feito sem capricho. É simples, isso sim. E ele agradece à atriz. "Alessandra revela-se em cena. É uma beleza que cresce, fica mais agressiva, iluminada. Se ela já começasse o filme maravilhosa, o espectador não ia ligar para a rejeição, porque logo ela ficaria com outro. É um trabalho muito bonito", diz o diretor, cujo filme está programado para estrear em novembro ou dezembro, ainda em 2011.

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