O ABC segundo Tatit

Zélia Duncan vai às letras de Luiz Tatit para criar espetáculo de linguagem inovadora

EMANUEL BOMFIM, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2012 | 04h27

Um ano se passou da estreia do "monólogo" de Zélia Duncan em São Paulo, quando encarou uma curtíssima temporada no Sesc Belenzinho para mostrar o produto mais ousado de sua carreira até agora: TôTatiando. Não é peça nem show, mas algo na intersecção entre eles. E não é musical também. Sozinha em cena, assumindo o ofício de atriz, ela reverencia a obra de Luiz Tatit, importante nome da vanguarda paulistana. "Aquilo foi criação. Agora, a gente vai desfrutar e evoluir", diz a cantora sobre sua nova série de apresentações, que começa hoje no Teatro Tuca, na zona oeste, e permanece por mais dois finais de semana. Em outubro, o espetáculo irá passar por outras capitais, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba.

Compor o novo projeto era um dos três objetivos de Zélia dentro das comemorações de suas três décadas de carreira. Lançar o DVD de Pelo Sabor do Gesto, registrado em sua terra natal (Niterói), também estava nos planos e foi cumprido no segundo semestre de 2011. O ato final, e grandioso, será o lançamento do disco com músicas de Itamar Assumpção (1949 - 2003), outra figura importante em sua trajetória artística. "Vai sair em breve, ainda neste ano. Eu fiz um Itamar carioca delicioso. O Kassin, produtor do álbum, arrasou", adianta ao Estado.

Este olhar para São Paulo e os artistas que daqui emergiram nunca deixaram de acompanhar a cantora de voz grave. No começo dos anos 80, em Brasília, já com violão em punho e um bocado de versos afiados, conheceu o grupo do qual Tatit fazia parte pelos discos de seu irmão mais velho. "Eu achei aquele som do Rumo muito esquisito", lembra. "Porém, me fez uma coceguinha qualquer. Plantou uma dúvida, uma confusão na minha cabeça, que foi algo extremamente benéfico para mim", afirma.

Ao longo dos anos, manteve a proximidade com aquelas canções e o modo nada ortodoxo de Tatit se expressar. O tal do canto falado, a poética original, a crônica da vida urbana, a melancolia e o humor contido nas letras, tudo foi motivo de encanto para Zélia. "Eu ouço essas coisas e tenho vontade de rir, de chorar, de me emocionar. Eu vou atrás disso."

O espetáculo, conta ela, não demorou a ser feito. Tinha as músicas na cabeça, só faltava aprimorar o aspecto teatral. Não queria fazer daquilo um show de música. Procurou, então, a amiga e atriz Regina Braga para trabalhar a parte corporal, cênica e da construção dos personagens. "Se eu tenho algum mérito nessa história, é o de saber quem vai estar ao meu lado. E nesse caso, eu confio na Regina cegamente. Eu acredito nela e vou fundo", ressalta.

São escassos os momentos em que atua sem o acompanhamento dos músicos Webster Santos e Tércio Guimarães no palco. A ideia é reproduzir ao máximo a linguagem desvendada por Tatit, "as evocações que viram melodias". Em território pouco habitual, a artista valoriza essa gama de opções dramatúrgicas. "Eu posso ser fraca, insegura, ter medo de um jeito mais explícito. Essa humanidade do teatro é fascinante", defende. "Nos shows é diferente, eu preciso estar forte, quero que a minha música chegue assim."

Acostumar-se com uma nova plateia, ainda que formada por muitos de seus fãs, também permitiu uma nova experiência no palco. "É uma coisa bacana você convocar o público a fazer o silêncio. A gente está numa época em que as pessoas têm uma histeria, elas querem ser divertidas. Só querem ir a um show se tiver aquela coisa de cantar e pular junto. A música não nasce assim. A participação com o silêncio é 50% na vida da gente. O próprio espetáculo já sugere isso."

Zélia também se diverte com aplauso espontâneo ou programado, mas revela que fica ainda mais realizada quando vê o público inclinar a cabeça, com um certo ar de espanto e fascínio, como se quisesse indagar: "Mas, afinal, que som é esse?"

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