NY comemora os 100 anos de Giacometti

O centenário de nascimento do suíço Alberto Giacometti (1901-1966) está sendo celebrado no Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York, com uma das mais completas retrospectivas já realizadas sobre a obra desse artista. Exibida no Kunsthaus Zürich entre 18 de maio e 9 de setembro, a exposição fica no museu nova-iorquino até 8 de janeiro. Nela se encontra o Giacometti desenhista e pintor de extraordinária originalidade, além do escultor que era capaz de usar o próprio espaço como ferramenta para criar suas figuras alongadas e nodosas. Dividida em seis galerias no segundo andar do museu e mais oito no terceiro, a retrospectiva Alberto Giacometti é essencialmente cronológica. Começa com uma seleção de pinturas, desenhos e esculturas dos anos pouco antes e pouco depois que ele se mudou da pequena aldeia de Stampa, no sudeste dos Alpes suíços, para Paris, em 1922, e termina novamente com uma série de obras nas mesmas três mídias executadas no início e em meados dos anos 60, pouco antes da morte do artista. Metade das obras é formada por esculturas, mostrando todo o desenvolvimento dele nessa expressão artística, desde 1919 até 1965. A maioria delas foi posicionada distante das paredes, dando ao público a chance de rodeá-las e surpreender-se com as relações a diferentes posições do corpo. A ênfase é dada a trabalhos feitos nos dois períodos mais produtivos de Giacometti, o primeiro entre 1929 e 1934, conhecido como avant-garde ou surrealista, e o outro entre 1947 e 1951, sua fase considerada clássica. Objetos - Vistos na primeira galeria, retratos de seus pais e dele mesmo, pintados a óleo ou esculpidos em bronze e mármore, mostram a associação do jovem artista com o modernismo suíço e seus estudos da arte européia tradicional. Logo depois de mudar-se para Paris a fim de estudar escultura, Giacometti não quis mais trabalhar a partir de um modelo. Influenciado pela escultura cubista e pela arte tribal, em 1925 ele produz sua primeira peça realmente moderna, o gesso Torso, e combina aquelas influências em Mulher-Colher (1926-27), ambas reunidas na segunda galeria da exposição. Em seguida vem uma série de esculturas muito finas, estruturadas como duplos relevos. Entre elas está o gesso Cabeça de Olhar Fixo, de 1928, que atraiu a atenção dos surrealistas, tanto os da linha de André Breton como de Georges Bataille. Entre 1929 e 1934, Giacometti criou o que ele mesmo chamava de "objetos" e não de esculturas, a fim de diferenciá-los das convenções e normas estéticas, e Salvador Dalí chamou de "objetos de função simbólica". Produtos do inconsciente, da imaginação, da memória e de sonhos, vários dos que são exibidos na retrospectiva podem ser identificados também em dois desenhos que ele fez do próprio estúdio, por volta de 1932. Entre eles se destaca O Palácio às 4 Horas da Manhã, daquele ano, a primeira obra de Giacometti adquirida por um museu, exatamente o MoMA. De acordo com o artista, a escultura representa o tempo em que ele e uma mulher tentavam construir um palácio com palitos de fósforo. A coluna vertebral de um lado da peça é a mulher, a figura em pé do outro lado é a mãe dele e o objeto fálico ao centro, o próprio autor. Em seu período surrealista, Giacometti criou vários modelos de ambientes nos quais o espectador deveria mover-se. No desenho de um projeto de "coisas grandes para espaço aberto", ele imaginou alguns trabalhos do início dos anos 30 reproduzidos em escala monumental. A única peça que chegou a ser feita assim foi Figura num Jardim, esculpida em pedra por encomenda de um visconde francês para ser instalada em sua propriedade no sul da França. Com quase 2,5 metros de altura, ela é vista em público pela primeira vez em cerca de 70 anos. Distância - Em 1933, a morte do pai do artista, Giovanni Giacometti, um pintor pós-impressionista com quem ele começou a desenvolver seu dom, levou-o a meditar sobre a mortalidade, produzir obras como o bronze de 1934 Mãos Segurando o Vazio (Objeto Invisível) e voltar a fazer estudos a partir de modelos vivos, o que marca o fim da sua associação com os surrealistas. Ele contava que sua intenção ao voltar às obras realizadas a partir de modelos era fazer isso apenas por duas semanas, "o suficiente para entender a construção de uma cabeça, de uma figura inteira". Mas o projeto se estendeu por mais de dez anos de experimentação, metade deles fazendo figuras minúsculas, com menos de 3 centímetros de altura. Suas primeiras figuras compridas, de superfície áspera e pés grandes como Homem Andando, de 1947, e Mulher em Pé, do ano seguinte, introduzem a representação da distância, psicológica e física, na arte da escultura. Exibidas pela primeira vez em Nova York, em 1948, na Pierre Matisse Gallery, aquelas obras foram apresentadas num ensaio do filósofo Jean-Paul Sartre como comentários existencialistas sobre a alienação e o isolamento humanos. O próprio artista, no entanto, considerava-se um realista, tentando "um projeto impossível" de representar a aparência das coisas como ele as via. De perto, lembrava ele, uma pessoa só vê partes da outra e, se quiser vê-la por inteiro, precisa afastar-se. "As pessoas na rua me interessam mais do que qualquer escultura ou pintura porque fazem e refazem composições vivas de complexidade inacreditável", disse Giacometti. Ao observar as pessoas a distância, ele também via - e representava - o espaço que as comprimia e rodeava. Desfazer e refazer - Embora se considerasse um fracasso como desenhista, Giacometti cresceu desenhando e nunca parou de fazer isso, atribuindo à concentração visual que esse processo carrega em si muitas de suas características estéticas. Numa das galerias que abrangem o período pós-guerra de sua obra há uma coleção de desenhos feitos entre 1951 e 1964, entre eles um em que o modelo é Matisse - outro que se achava péssimo desenhista - desenhando. A partir do final da década de 40, Giacometti passou a pintar na mesma intensidade com que esculpia. Seu formato preferido, como se vê nas últimas galerias da retrospectiva, era uma simples figura, geralmente alguém sentado, num ambiente interior. Nesses quadros, como o retrato que fez de seu irmão, em 1954, Diego de Camisa Xadrez, Giacometti emprega as mesmas estratégias que aplicava às esculturas. A impossibilidade de capturar uma figura em sua totalidade atormentou Giacometti em seus últimos anos de vida e resultou em pinturas e esculturas produzidas num constante processo de fazer, desfazer e refazer. Três das figuras femininas feitas para a Bienal de Veneza de 1956 estão reunidas na penúltima galeria da retrospectiva. Durante cinco meses, usando o mesmo barro sobre a mesma armadura de arame, Giacometti criou pelo menos 15 figuras. Quando ficava satisfeito com um resultado, Diego, seu irmão, o moldava em gesso, preservando assim os sucessivos estágios da obra. A 14.ª e última galeria reúne bustos de Anette, a mulher do artista, modelados em 1962 e outros de seu amigo e fotógrafo Elie Lotar, a última pessoa a posar para ele, feitos três anos depois. Conta-se que Lotar começou a posar no começo de 1964, fez isso pelo menos 400 vezes e o trabalho só parou no fim do ano seguinte, quando o câncer deixou Giacometti tão fraco que ele não pôde mais trabalhar. Transferida da Suíça para os Estados Unidos alguns dias depois dos ataques terroristas a Nova York e Washington, em setembro, a retrospectiva Alberto Giacometti é considerada por Glen Lowry, diretor do MoMA, "um pequeno milagre", pois o estado de guerra pôs em risco sua realização. Organizada com notável dedicação, ela só será exibida por esse museu no continente americano.

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