Nuno Ramos faz chover no CCBB

Está chovendo dentro do Centro Cultural Banco do Brasil. O autor dessa proeza não foi o tempo ou o desgaste material, mas um dos mais inventivos artistas contemporâneos do País. Convidado para realizar uma grande exposição nesse problemático espaço, tomado por um grande vão central e salas de exposição um tanto tímidas, Nuno Ramos optou por um trabalho de forte impacto visual e sonoro, que provoca não apenas o público cativo das artes visuais mas qualquer pessoa que visitar o centro nos próximos dois meses. Por meio de um sofisticado sistema de canaletas, uma forte "chuva" cai sobre o hall central do espaço, transformado numa pequena piscina impermeabilizada. Saindo do meio da água e instalados no teto, alguns alto-falantes berram, por sobre o barulho hipnótico da chuva, um poema de Carlos Drummond de Andrade, recitado por um coro masculino."Sobre o tempo, sobre a taipa, a chuva escorre/As paredes que viram morrer os homens/Que viram fugir o ouro/Que viram finar-se o reino/Que viram, reviram, viram/Já não vêem/Também morrem", dizem eles, como se, de repente, substituíssem o luxo do prédio art decó pela paisagem desolada descrita em Morte das Casas de Ouro Preto. Logo de início, o visitante é forçado a se deparar com uma certa melancolia, com esse caráter um tanto noturno, mesmo que belo, da obra de Ramos. A escolha de Drummond - cuja poesia também dá título à mostra -, não é apenas fruto de uma gigantesca admiração. É também indício de um certo fascínio do artista pelo inacabado, pelo seu desejo de captar as coisas antes que elas se concretizem, de corporificar o intangível, como conseguiria o poeta mineiro.A sensação de abandono, de uma certa impotência diante desse descaso, da violência que domina as relações no País, vai crescendo ao longo da exposição (composta por quatro grandes núcleos de trabalho e dois filmes), mas sempre de maneira contida, de enunciados poéticos e sutis, nada explícitos. Respirar vai tornando-se um pouco mais impossível a cada momento. Não à toa Ramos inclui entre suas referências figuras como Nelson Cavaquinho e Oswaldo Goeldi. "Eles fazem parte dessa família mais trágica, menos reversível, menos tropical, mais noturna da arte brasileira", resume ele, dizendo-se com "pouca disponibilidade para as coisas pequenas, alegres, da sociedade de consumo".Para realizar essa exposição, na qual ele vem trabalhando desde janeiro, foram necessárias mais de 30 pessoas e um orçamento que Nuno compara ao de um modesto longa-metragem. Além da impressionante infra-estrutura necessária, foram feitas até mudanças estruturais no prédio, como a substituição de sólidas paredes por magníficas janelas na sala que abriga as peças da série Casco (um filme com o mesmo título, de autoria de Ramos, Eduardo Climachauska e Gustavo Moura). Por ocasião da exposição, cuja inauguração coincide com o 3.º aniversário do CCBB em São Paulo, também está editado um alentado catálogo, de 140 páginas, com textos de Paulo Venâncio Filho e Vilma Areas.Morte das Casas, de Nuno Ramos. De terça a domingo, das 10 às 21 horas. CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651. Até 20/6. Abertura hoje, às 11 horas.

Agencia Estado,

21 de abril de 2004 | 13h14

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.