Evelson de Freitas/Estadão
Evelson de Freitas/Estadão

Nuno Ramos abre exposição em São Paulo

Antes de mostrar a série integral de desenhos sobre as 'Elegias de Duíno', ele faz um preview na galeria Fortes Vilaça

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2013 | 20h43

Indiferente à época em que viveu, o poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926) inventou anjos quando a modernidade batia à porta da Europa. Ele, além de avesso à velocidade e refratário às máquinas, ousava voltar a um mundo mítico, arcaico, para resgatar não uma religiosidade primitiva, mas ajustar contas com o céu. Surpreende que outro poeta, um século depois, faça uma releitura visual de uma de suas maiores obras, Elegias de Duíno, que consumiu dez anos (de 1912 a 1922) da vida de Rilke. No entanto, essa é a característica mais marcante da obra do artista Nuno Ramos: surpreender sempre.

Ao voltar de uma viagem ao Egito, em 1912, Rilke ficou tão impressionado com o culto aos mortos que passou uma temporada num castelo medieval em Duíno, perto de Trieste, escrevendo as primeiras das suas enigmáticas elegias sobre anjos e homens. Foi lá que teve uma revelação epifânica, ao ouvir uma voz trazida pelo vento que lhe sugeriu os primeiros versos da primeira elegia: “Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos anjos me ouviria?”

É possível que o visitante da exposição de Nuno Ramos na Galeria Fortes Vilaça, aberta até 14 de setembro, chegue à mesma conclusão do poeta, ou seja, de que nem mesmo uma intervenção celestial o conseguiria salvar do vazio existencial, mas será difícil ignorar a presença do anjo que o artista brasileiro tornou visível numa série de 12 delicados desenhos.

Essa série que emerge das elegias de Rilke contrasta com os últimos trabalhos monumentais de Nuno. Há um ano ele enterrou três casas da família (em tamanho natural) numa galeria de Belo Horizonte. Depois, colocou dois globos da morte em outra galeria para exorcizar o fantasma da destruição, do aniquilamento. Agora, na série dedicada a Rilke, os desenhos são de dimensões médias, assemelhando-se aos sketchbooks de Beuys e aos traços dos construtivistas russos. Neles, dois personagens dividem o espaço do papel: um anjo e um boneco (na quarta elegia, ele é descrito como uma marionete, um títere, que o poeta prefere às “máscaras vazias, ocas”). Nessa quarta elegia, a mais obscura – e terrível, como o anjo criado por Rilke – o poeta, tomando consciência de sua finitude, conclui ser um exilado da unidade cósmica. Só mesmo um poeta como Nuno poderia dar forma a esse sentimento.

A série supera em número os 12 guaches agora apresentados. Ela já atinge 62 trabalhos e será exibida ampliada, em dezembro, no Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba. Nela, Nuno reduz os personagens de Rilke a um traçado esquemático, que elege duas retas e duas curvas para representar anjo e boneco, numa simplificação formal que ele mesmo define como próxima aos personagens do grafiteiro Basquiat (1960-1988). Nuno segue o caminho inverso ao de Rilke, que na quinta elegia descreve de forma hermética uma das telas mais conhecidas de Picasso, Os Saltimbancos (1915).

A pintura do espanhol o impressionou a ponto de transformar os personagens do pintor em figuras desamparadas pelos anjos, atiradas à indiferença do mundo e consumidas pela noite escura da alma. Rilke era particularmente sensível às artes, tendo sido secretário particular do escultor Rodin. Nuno fez a série em homenagem à mãe, que morreu há dois anos. É um consolo, ainda que a beleza de seu anjo seja terrível e sua presença, aniquiladora.

 

ANJO E BONECO

Galeria Fortes Vilaça. Rua Fradique Coutinho, 1.500, tel. 3032-7066. Ter. a sex, 10h às 19h. Sáb, 10h às 18h. Até 14/09

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