Nunca se está sozinho em Paris

O filme se abre com um solo de Sidney Bechet (Bechê, na pronúncia francesa) enquanto imagens de Paris se sucedem, diurnas e noturnas, mas Woody Allen não vai falar apenas da beleza turística da cidade luz, de seus tantos cartões-postais, ainda que sigam inexauríveis. O protagonista de Meia-Noite em Paris, Gil Pender (Owen Wilson), quer muito mais da cidade que sua noiva e seus sogros, americanos como ele, que dizem que ela serve "para visitar, não para morar", e só fazem programas banais e compras, muitas compras. Gil está cansado de escrever ou reescrever roteiros medíocres em Hollywood para ganhar dinheiro e gastá-lo em móveis de US$ 20 mil para sua casa em Malibu. Quer escrever um romance, e dos bons. Mas não tem apoio autêntico de ninguém.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2011 | 00h00

Um amigo que encontram lá, um tipo "pedante Google" que acha que conhecimento é acumular informações sem qualquer relação com as experiências, diz logo no começo que essa mania de falar em "eras de ouro", de idealizar épocas como se tivessem sido perfeitamente felizes, é coisa de quem não consegue lidar com o presente. Bem, o presente de Gil não é dos mais inspiradores e, numa noite, sozinho e bêbado, um carro antigo passa e o leva para um festa. Ali vê Cole Porter tocando e cantando Let"s Do It ao piano e conhece o casal Scott e Zelda Fitzgerald; pouco depois, é apresentado a Hemingway; ainda encontra Gertrude Stein, Dalí, Djuna Barnes, Archibald McLeish, Buñuel, Matisse, Modigliani e Picasso. Idealizando ou não, quem não queria estar nesse tempo e lugar?

Nós, espectadores, rimos com o "name-dropping" de Woody e partilhamos a perplexidade de Gil, mas não é esse o único barato do filme. Gil encontra também Adriana (Marion Cottilard, presença muito mais especial que a de Carla Bruni), uma encarnação de charme e sensualidade que sua bela noiva jamais poderia igualar. Ela é amante de Picasso e depois Modigliani, o que vale uma fala deliciosa de Gil: "Você dá outro conceito à palavra groupie". Groupies, como se sabe, são aquelas fãs que transam com os ídolos só porque estes sobem ao palco e tocam dois acordes. Gil tem ainda a oportunidade de receber a opinião de Gertrude Stein sobre seu romance e de conversar com Hemingway, "Papa" (quantas pessoas na plateia sabem desse apelido?), sobre como o amor só vale a pena quando o sexo suspende nosso medo da morte.

Woody faz como ninguém essa reconstituição dos personagens. Quem já leu os textos do cineasta conhece seu dom para parodiar estilos como o de Hemingway, o qual se vê nos diálogos do filme, repletos de "and" ("e"), assertivas (como ao profetizar para Scott sobre Zelda: "Essa mulher vai te deixar louco e vai estragar seu talento") e expressões como "grace under pressure" (graça sob pressão). Não gostei tanto do Picasso mal articulado e rabugento, mas isso é detalhe. O que importa é que esses "amigos imaginários" de Gil, como diz sua noiva em tom de crítica, representam para ele uma experiência virtual que vai se refletir na realidade - e não é para isso que a arte serve? Por um momento, ele pensa se é possível gostar de duas pessoas, mas não demora muito para ver que sua noiva materialista e egoísta não o ama nem merece ser amada.

Da mesma maneira, Woody não quer saber apenas de fazer turismo por um passado glamouroso para quem se interessa por artes e mulheres. Adriana quer viver em outra era de ouro, na década de 1890, e conviver com Lautrec e Degas, jantar no Maxime"s e ir ao Moulin Rouge. Todos já pensamos nisso: em viver na Florença dos Médici, na Londres do exílio de Voltaire, no Rio dos anos 50... Eu confesso que sempre pus no topo da lista a mesma Paris dos anos 20. Mas quem acha que Woody está dizendo que não existem eras de ouro comete tolice. Decididamente, os tipos de conversa, música, dança, literatura, pintura e moda que vemos desfilar no filme, para dizer o mínimo, formam um contraste forte com nossa época frívola, dominada pela patrulha das aparências, tão sem espirituosidade e refinamento. Um dos bares que Gil visita nos anos 20 é hoje uma lavanderia, cheia de máquinas, vazia de coragens.

No final, em que Gil encontra no presente uma chance de perpetuar esse ânimo do passado (encontra um sabor dos anos 20 numa pessoa e num lugar), vemos como foram bobas em geral as resenhas sobre o filme. Woody não fez apenas mais uma "diversão inteligente", como se fosse um bom seriado de TV ou outro de seus filmes recentes. É divertido, claro, mas está a serviço da inteligência, que não é adjetivo. Pode ser lido como um filme sobre a Paris dos anos 20; sobre a relação americana com a cultura europeia (e os americanos atuais se saem mal no filme: sempre se queixando, até da comida); sobre a ousadia de realizar o sonho de ir a fundo no trabalho e no amor; sobre uma cidade ou as cidades especiais, que são mais ricas se têm mais "fantasmas" inspiradores. Sim, parece dizer Woody Allen depois dessa série de filmes rodados na Europa, é preciso lidar com o presente, mas "o passado nem sequer passou", na citação que faz de Faulkner, e há muitas maneiras de lidar com o presente. Au point.

De la musique (1). Fomos ver Gustavo Dudamel reger a Orquestra Simón Bolívar na Sala São Paulo na segunda-feira. Ele é mesmo um prodígio, o melhor maestro latino-americano da atualidade, com apenas 30 anos, e tem a grande vantagem de não recorrer ao método tirânico ou Rei Sol ("A orquestra sou eu") da maioria de seus pares. Sabe ser generoso e exigente com seus músicos. Isso não significa que acerte sempre, já que a interpretação da Sétima Sinfonia de Mahler foi irregular, ora apelando demais para a força, ora perdendo um pouco o pulso. Nos momentos que pediam vigor, como no primeiro e no último movimento, a orquestra correspondeu melhor, apesar de faltarem graduações aqui e ali. A soma, no entanto, foi muito prazerosa, pois Mahler não é fácil, com suas descontinuidades e instrumentações, e o carisma do maestro dominou a plateia do começo ao final.

De la musique (2). O novo CD de Madeleine Peyroux, Standing at the Rooftop, tem poucas canções de outros compositores, embora as que tem sejam de primeira linha, como Martha My Dear, dos Beatles, em ritmo folk, e I Threw It All Away, de Bob Dylan. A maioria do repertório é da própria Madeleine Peyroux, como a bela faixa-título e uma que se chama Meet me in Rio. Mais e mais mulheres compõem para homens, revertendo uma tradição de sete séculos, e essa é ótima notícia, afinal paixão pede duas vontades. As canções, um tanto lentas, não estão no mesmo nível, mas a voz de Madeleine - bobamente criticada por lembrar muito a de Billie Holiday, que era mais lunar e genial - torna tudo mais interessante.

A arte de ver. Levamos as crianças para ver a exposição de M.C. Escher no Centro Cultural Banco do Brasil, que vem tendo ótima visitação. De memória, achei melhor que aquela que veio ao Masp nos anos 90. Muitas de suas obras não são muito mais que jogos polares, de positivo e negativo, e efeitos como a "op art" faria depois. Mas, além do pioneirismo, há muito talento e coerência em seu trabalho e acho que ele atinge a grandeza quando tem algo de surrealista, como, na exposição, o "Poço Infinito" e a "Sala Impossível". Nesta, que na verdade usa apenas um truque de espelho (com objetos divididos ao meio e encostados no próprio reflexo) que muitos visitantes não percebem, o mais divertido é ver a cena que ele criou com um gato, um livro e um banco. Com a mostra de Hitchcock no mesmo prédio, o público sai de lá como se tivesse de aprender a olhar de novo. E todo dia temos.

Rodapé. A maioria conhece George Orwell por seus romances distópicos do final da vida, A Revolução dos Bichos e 1984, mas não sabe que ele foi um dos maiores jornalistas do século 20. Isso quer dizer que escrevia reportagens, resenhas e ensaios de alta qualidade, com um estilo elegante e direto, com muita sensibilidade para os detalhes e, ao mesmo tempo, sem medo de opinar e generalizar. Em Como Morrem os Pobres e Outros Ensaios (Companhia das Letras), Matinas Suzuki e João Moreira Salles escolheram 29 textos com tal quilate. Alguns estavam na seleção que fiz há seis anos (Dentro da Baleia e Outros Ensaios) e foram deixados de fora para que o volume não ficasse grande demais, como Marrakesh (uma das reportagens mais estudadas em cursos de jornalismo literário, ao lado de Atirando num Elefante e Um Enforcamento), Em Defesa da Culinária Inglesa, A Poesia e o Microfone e mais alguns como o que dá título à coletânea, onde descreve hospitais públicos que os brasileiros vão achar familiares. Se há um estilo para jovem jornalista estudar, é o de Orwell.

Por que não me ufano. Em 20 anos de carreira, vi de tudo no jornalismo. Vi o caminhão de negativismos que é derrubado na cabeça dos iniciantes, vi muita maledicência em corredores, vi mensagens anônimas ofensivas, vi gente da "sociedade" pedindo cabeça de crítico, vi chefes e adjuntos boicotarem vida pessoal dos subordinados e obrigá-los a falar mal de quem invejam, vi muita falta de ética. Mas também pude conhecer pessoas como Paulo Francis, Ruy Castro, José Onofre e Hamilton dos Santos, para dar exemplos de quatro que me ajudaram a iniciar a carreira e sempre se pautaram pela seriedade.

De leitores não foi muito diferente: para cada um que vem pichar em vez de grafitar, há cem que chegam para dizer que discordâncias não impedem o reconhecimento dos esforços e critérios. Recebi muitas comunicações desde a semana passada, por e-mail, pelo blog ou pessoalmente, e queria agradecer. Há momentos na vida de cada um, tristezas muitas vezes não merecidas, em que a força de dentro precisa ser chamada pela de fora. Obrigado.

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