Nunca quis o trono, eis seu drama

Colin Firth vai ganhar o Oscar de melhor ator - nenhuma dúvida quanto a isso. O prêmio do SAG, sindicato dos atores, somado a outras recompensas, o torna imbatível na categoria por seu papel como George VI em O Discurso do Rei. O longa de Tom Hooper estreita hoje. Firth é impecável, mas nem ele nem o filme são tudo isso.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2011 | 00h00

O problema de O Discurso é que tudo o que você pode dizer contra o filme também pode ser lido a favor. A direção de Hooper é acadêmica e teatral, e olhem que ele ganhou o prêmio da Liga dos Diretores. Ok, mas justamente academicismo e teatralidade são adequados ao formato da história.

Existe outra ponderação - reis e rainhas ingleses sofrem demais em Hollywood, mas os norte-americanos adoram o que já é um gênero específico. É o complexo de colonizados deles. O aspecto mais interessante do filme é a entrada do rádio como mídia, ou meio de comunicação de massa. O cargo do rei é simbólico, mas, ao falar para a nação - e as nações que compõem o império britânico -, ele não é apenas um homem. Vira uma instituição. Encarna uma coisa muito maior.

O problema é que George VI era gago. Precisou da ajuda, nada ortodoxa, do personagem de Geoffrey Rush, para vir a ser a voz que a nação necessitava, face ao avanço dos nazistas. Uma cena interessante mostra George VI fascinado diante de Hitler, a quem vê discursar num cinejornal. Apesar desse fascínio pelo personagem, ele representou uma parede, uma oposição. A gagueira foi um empecilho que ele teve de superar, mas a verdadeira tragédia de George VI é que, ao contrário do herói famoso do clássico de John Huston - adaptado de Rudyard Kipling -, ele nunca quis ser rei. O homem que não queria ser rei. O Discurso é mais complexo visto por aí.

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