Divulgação
Divulgação

Nunca morrerá

Autobiografia de Neil Young tem drogas, tragédia, mulheres, carros, paternidade e muito rock'n'roll

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2012 | 03h10

Não tem a poesia das memórias de Patti Smith, não tem o rigor historiográfico da biografia de Bob Dylan. Entretanto, tem a crueza e a honestidade típica da carreira de Neil Young, de 66 anos. Não segue uma cronologia facilitadora, é elíptico e digressivo, e às vezes cansa com suas histórias intermináveis sobre marcas de carros e ferromodelismo, mas com paciência e atenção o rock'n'roll escapa pelas páginas e seu fogo consome o leitor.

Trata-se de Neil Young - A Autobiografia (Globo Livros), volume que chegou às livrarias do mundo todo simultaneamente esta semana, e conta a história do roqueiro canadense que criou os lendários grupos Buffalo Springfield e Crazy Horse e que inscreveu seu nome na galeria dos heróis da consciência do rock, ao lado de Bruce Springsteen, Bob Dylan, Leonard Cohen, Patti Smith e outros poucos. "É melhor queimar do que se apagar", diz um dos versos mais famosos de Neil Young, citado por Kurt Cobain em sua última carta.

Ao contar sua história, Young pretendeu que não resultasse num livro de premeditação, cheio de lances de nobreza e inspiração fabricados. Todos seus vícios e fraquezas são escancarados ao longo da biografia, e os dilemas de sua vida são esmiuçados. Ele conta como participou de festas com o assassino Charles Manson (que torturou e matou a atriz Sharon Tate, grávida), e de como tentou convencer Manson a assinar um contrato de gravação de discos. Conta sobre festas com drogas com Eric Clapton e Stephen Stills, e narra como está tendo dificuldades para compor uma música sequer desde que largou a bebida e a maconha.

Young é pai de dois filhos com paralisia cerebral, Zeke e Ben Young (que nasceu tetraplégico e se alimenta por um tubo no estômago, tem 34 anos e é a quem o cantor dedica o livro) e de uma garota, Amber. Neil é filho de um escritor que largou a família (e que morreria de Alzheimer, em 2005), deixando-o para ser criado pela mãe. Nasceu em Omemmee, uma pequena cidade de Ontário, cuja população era de 750 pessoas na sua infância.

Neil Young teve poliomielite quando criança, e teve de retirar uma vértebra da parte inferior da coluna quando tinha 6 anos. Usou aparelho ortopédico por um longo tempo e até realizou turnês assim, como as filmagens do famoso concerto do Massey Hall, em 1972.

Vivendo numa fazenda nas montanhas de Santa Cruz, ao Sul de São Francisco, Neil Young admite sua impaciência crônica e chuta o traseiro da autocomiseração. Examina com atenção seus próprios excessos, "a fama, as drogas, o dinheiro, as casas, os carros e os admiradores". Suas reflexões são muitas vezes quase desencarnadas de tão cruas. "Eu achava que comprar um carro ou uma guitarra era como comprar as lembranças de alguém, seus sentimentos e sua história." E ele cita, e às vezes adota, um lema do seu ex-produtor David Briggs, que costumava dizer: "A vida é um sanduíche de bosta. Coma ou morra de fome".

O título original do livro é Waging Heavy Peace (algo como "Pagando por uma Paz Pesada"). "Houve momentos em que fui um banana e deixei para os outros o trabalho sujo, mas aprendi que não é assim que se faz", diz o cantor. Young parece ter escrito para compreender o combustível que move suas próprias escolhas morais, das quais ele não está inteiramente convicto.

Nada na história de Neil Young é ordinário. Sua primeira banda, The Squires, circulava pela cidade a bordo de um carro funerário, Mort, comprado por sua mãe, Rassy, e fez seus primeiros shows. Dormiu no chão do apartamento de uma amiga e foi ali que escreveu a primeira canção que chamou a atenção até de Joni Mitchell, Sugar Mountain.

Os loucos anos 1960 quase deram cabo do jovem Neil Young, que foi preso por dirigir sem carteira e espancado por um policial, que o chamara de "hippie fedorento", e a quem retrucara: "Você parece um gafanhoto". Ele não tinha limites. "Nós descolávamos muitas garotas e curtíamos adoidado. Peguei algumas doenças sexualmente transmissíveis e comecei a ficar consciente de que havia uma relação de causa e efeito ligada às decisões que eu tomava."

Ele até mesmo brinca com o fato de ter feito, deliberadamente, imitações de Bob Dylan no início da carreira. "Vou fazer minha melhor imitação de Bob Dylan. Vou entrar com uma guitarra acústica e uma gaita. Nada de elétrico. (...) Será como um fantasma do passado, um regresso total a outra era."

Sobre sua mitológica banda Crazy Horse, formada em 1969, ele a coloca num nicho especial em sua carreira. Lembra que muita gente lhe pergunta por que toca com a Crazy Horse até hoje, se não sabem tocar? "Tocar com a Crazy Horse é algo transcendental", diz. Ele considera que o guitarrista da banda que morreu de overdose, Danny Whitten, teria se tornado um dos maiores do rock se tivesse sobrevivido.

David Crosby e Graham Nash, seus amigos do grupo Crosby, Stills, Nash & Young, ressurgem em quase toda a sua trajetória. Neil Young conta que está sem usar drogas há 7 meses quando finaliza o disco. Foi conselho do médico, que percebeu "algo se desenvolvendo no cérebro" de Neil Young. "Ainda sinto fissura", confessa. E também não consegue mais compor, está travado desde que ficou limpo. Além do seu carro elétrico, o LincVolt, com que roda o país em busca de alertar para a necessidade de substituir o consumo de combustíveis no mundo, ele também preconiza uma nova forma de oferta de música na internet, por meio do projeto PureTone.

"O objetivo da empresa é salvar minha forma de arte, a música, da perda de qualidade, que acredito ser o principal motivo para o declínio das vendas no setor musical, e para o declínio da própria música na cultura popular. Com a chegada dos varejistas da música online, como o iTunes, começou a piora da qualidade."

Young fala de coisas muito próximas da atualidade e as mistura com coisas muito remotas do passado. De ontem: "Chegar a Woodstock foi muito divertido. Lembro de encontrar Jimi Hendrix em um pequeno aeroporto e de viajar de caminhão com Melvin Belli, o famoso advogado, até o show". De hoje: "Pearl Jam é uma banda que respeito bastante. Nirvana e Sonic Youth também. Mumford and Sons, My Morning Jacket, Wilco, Givers e Foo Fighters são algumas de minhas favoritas. Respeito as bandas que me dão algo delas que posso sentir - já bandas metidas me desagradam de forma geral".

Seus companheiros são poucos mas são fiéis. Bruce Springsteen, Nils Lofgren, Tom Petty, Crosby, Stills e Nash e Robin Williams o ajudaram, e à sua mulher, Pegi, a recolher fundos e fundar uma escola para pessoas com paralisia cerebral. Compartilham ansiedades e sonhos. "Meu amigo Paul McCartney sente o mesmo. Ele ama a música, mas precisa se afastar dela para permanecer vital como músico. Esse certamente é um ato de equilíbrio."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.