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Nunca houve noite como a de 67

Documentário sobre festival histórico da Record retrata com perfeição a energia coletiva do período

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2011 | 00h00

Ao rever em DVD o documentário Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, percebe-se que, primeiro, foi mesmo um dos melhores filmes do ano passado, pois melhora a cada revisão. Segundo, que o excesso de material pode ser um doce problema para os diretores, que o resolvem realocando nos extras o que foi podado na montagem. A opção de edição final revelou-se correta, as músicas finalistas do festival eram mesmo as que tinham de entrar com ênfase no filme: Ponteio e Roda Viva, de um lado; Alegria, Alegria e Domingo no Parque, de outro. De quebra, o incidente da desclassificação de Beto Bom de Bola, na célebre apresentação de Sérgio Ricardo, que terminou por jogar seu violão no público depois de tomar uma vaia impiedosa. Mas o que sobrou e foi para os extras (veja texto abaixo) não é apenas material de excelente qualidade, como também comentário e esclarecimento daquilo que foi escolhido para a edição final.

Os diretores trabalham em dois níveis. Num, exploram o magnífico acervo de imagens da TV Record, que realizava os festivais e dominava o ambiente musical nos anos 60. Em outro, realizam hoje entrevistas com os protagonistas de ontem. Se a ideia era recuperar o tônus de uma época, o documentário cumpre seu objetivo, porque não se tratava só de música. Os festivais foram criados para serem "bons programas de TV", como contam os profissionais da TV da época. Mas, por força de um clima muito exacerbado, e marcado por cisões políticas e estéticas, os festivais foram além desse planejamento. Serviram para demarcar posições e funcionaram como veículos para sentimentos de revolta que não podiam ser expressos de outra maneira durante uma ditadura.

Quem viveu aquele tempo, ou sobre ele estudou, sabe como as coisas aconteceram. De um lado, havia a contestação ao regime militar, associada a um nacionalismo xiita que via na guitarra elétrica a ponta de lança do imperialismo norte-americano, abrindo caminho para o rock e a Coca-Cola. De outro, um grupo começava a se aglutinar em torno de Caetano e Gil e que, sem deixar de ser avesso ao autoritarismo, dialogava com mais facilidade com o pop internacional. Esse grupo não considerava uma traição à pátria ouvir o último LP dos Beatles ou dos Stones. Já o outro era capaz de organizar uma passeata contra a guitarra elétrica. Hoje é fácil ridicularizar tanto fanatismo e intolerância, mas cada época tem as suas características e a tal "passeata da guitarra" foi antes de tudo um movimento de defesa da cultura nacional. O mérito maior de Uma Noite em 67 é trazer de volta esse ambiente, para nostalgia dos que o viveram e dos que não eram nem nascidos na época - como os codiretores.

Claro, as canções eram lindas. Não envelheceram e, para além das polêmicas que ganhavam corpo através delas, continuam marcos permanentes da música popular brasileira em uma de suas fases mais criativas. E, se muita coisa o vento levou, seus principais personagens foram preservados da ação do tempo. Continuam figuras importantes da vida cultural do País: Chico Buarque, agora mais voltado para a literatura que para a música; o sempre provocativo Caetano Veloso; Gilberto Gil, o ex-ministro de Lula, e o discreto e sempre fundamental Edu Lobo. Eram muito jovens na época e hoje ainda têm muito a dizer a este país um tanto desacertado e ainda deficiente do ponto de vista cultural.

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