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Humberto Werneck
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Nunca fui santo

Na minha enorme pretensão, deixei aqui, semana passada, uma insinuação de que eu poderia ter sido um caso de santidade infantil, no mesmo nicho, quem sabe, do Antoninho Marmo e dos pastorzinhos de Fátima. O que deu em mim? Assolado pela vertigem de sobreloja - aquela sensação, ainda nos primeiros degraus, de já ter chegado aos píncaros -, cheguei a supor que meus pais, temerosos de que o inocente morresse antes de receber a Eucaristia, trataram de me aplicar a primeira comunhão aos 5 anos, e não a partir dos 7, como se usava.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

29 Março 2015 | 02h05

Ledo, ledíssimo engano. De saída, o amigo Claudio Pepper se encarregou de baixar minha bola ao me lembrar que bem antes de mim já existia um Santo Humberto, padroeiro dos caçadores, cujo nome, aliás, acabou batizando uma raça canina. Não me bastasse ser xará de cachorro, outros leitores vieram me contar que nem na minha família fui o único a estrear na Eucaristia aos 5 anos.

Amainada a vertigem de sobreloja, vim parar no extremo oposto, passando a considerar a hipótese de que fosse, já aos 5, a genuína vocação para o pecado que a sequência veio confirmar.

Mas quais pecados, no verdor daquela idade pré-testosterona? Isso não é desculpa, me respondia a pesada consciência. Não se tratava apenas do pecado original, herança de remotos avós que, peladões no Paraíso, aceitaram convite da serpente para degustar maçã. Hoje, não sei, mas havia, sob o título "Exame de consciência", um rol impresso de possíveis infrações: fiz isso?, fiz aquilo?

Por mais que me esforçasse, não achava ali algum malfeito que devesse confessar ao padre. Longe de sentir alívio, porém, me angustiava, à beira da constatação de que nem para o pecado eu levava jeito - e olha que havia três maneiras de delinquir contra o Senhor: por pensamentos, palavras e obras. A saída foi apropriar-me de malfeitos alheios, assumindo-os no confessionário como sendo de minha autoria. Fazia carreto de pecados. Não estranhe: você já deve ter ouvido contar de gente que, quando sem assunto na terapia, faz carreto de problemas de outrem.

Eram dois os tipos de pecado - o mortal e o venial. Como o primeiro tingia de preto a nossa alma, deduzi que o outro, mais leve, o fizesse com tons acinzentados. Na minha ignorância também cromática, imaginei que, não sendo virtuoso, eu poderia ao menos diluir o negror dos pecados mortais acrescentando-lhe a tinta menos escura dos veniais. Pecou contra a castidade? Amenize o pretume cometendo infrações mais leves, do tipo fazer má-criação.

Já abastecido de pecados próprios, caí nas garras de um confessor que atendia pelo paradoxal nome de Benigno, o qual (contei isso?) me impunha penitências tão pesadas - chegou a condenar-me a 5 terços "com devoção" - que um dia, soterrado pelas dívidas acumuladas, declarei moratória, em parte fiado na certeza de que, com tanta reza, minha e de meus pais, já amealhara pecúlio espiritual suficiente para assegurar a salvação da alma. Nem que eu quisesse, pensei, iria arder no Inferno. Não me lembro de ter ouvido do frei Maligno uma única palavra que me incitasse ao bom caminho. Sei de um moço que a ele recorreu em pantanosas aflições - e saiu com esta receita: "Filho, agarre-se ao manto azul de Nossa Senhora!".

De muito mais valia me foi a assistência de um servo de Deus cuja identidade devo resguardar, pois se tornou pai de família. Limito-me a apresentá-lo como Chico, cidadão espanhol que, para pagar promessa da mãe, cresceu no seminário e se fez padre. Jovem, bem-humorado, exuberante, bastava vê-lo para perceber que se tratava de um leigo vocacional. Era chegado num vinho, em especial o não consagrado. Assistente espiritual de um grupo de pais e mães, causou consternação no dia em que, ao fechar uma jornada de orações, encaixou veemente (e infrutífera) reivindicação salarial.

Na única vez em que com ele me confessei, não admitiu que o fizesse de joelhos. Ali onde brasa só podia ser de incenso, liberou o fumo (industrializado), e, em meio à função, me pediu tragada. Só faltou se confessar a mim. Impaciente, como que olhando por sobre os ombros do assunto, deu-me uma absolvição cuja validade considero extensiva a todos os meus pecados, passados, presentes e futuros - e, jovial, propôs:

- Teatro hoje à noite? Depois a gente vai na pizza do Giovanni.

Faz décadas que não vejo o ex-padre Chico, mas aposto que deu bom marido, e, algo me diz, pai de copiosa prole.

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