‘Nunca fui marqueteiro. E não guardo arrependimentos por isso’

Ninguém é Carlos Lyra impunemente, já dizia nos anos 60 o escritor Millôr Fernandes. A frase basta como cartão de apresentação desse cantor, compositor e violonista, carioca de Botafogo, responsável por clássicos da Bossa Nova como Minha Namorada, Coisa Mais Linda ou Influência do Jazz.

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06 Fevereiro 2017 | 16h47

Hoje aos 77 anos, tendo acabado de fazer uma pequena temporada em São Paulo com seu sobrinho Cláudio Lyra – também violonista e compositor –, o cantor é um vasto repositório de memórias musicais – especialmente da Bossa Nova. Seja por ter convivido, naquele período, com talentos como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Gilberto e Nara Leão, seja por sua polivalência – criou músicas de protesto célebres como a Canção do Subdesenvolvido, e outras de grande lirismo, como Primavera.

Não falta quem diga, hoje, que Lyra é um injustiçado – que mereceria o mesmo destaque dessas celebridades. Mas, perguntado a respeito, ele não se altera. “Nunca fui marqueteiro. Eu colho os frutos de minha personalidade”, resume nesta entrevista por e-mail ao repórter Amilton Pinheiro.

A música brasileira hoje? Ele a comenta, de passagem, ao mencionar um de seus cantores favoritos – e pouco lembrado –, Dick Farney. “A memória brasileira é muito curta”, responde. E cobra “da mídia” por dar ênfase “às novidades, às aberrações, às maquiagens, luzes, purpurina”.

Um de seus feitos, aqui relembrado em detalhes, foi o empenho em juntar o talento da música da zona sul com a força do samba do morro, no qual juntava projeto musical e causa política – ele era militante do Partido Comunista e dirigia o Centro Popular de Cultura, braço do Partidão nos meios universitários. “Quando Cartola me apresentou a Nelson Cavaquinho, Zé Kéti e Elton Medeiros, passei a organizar reuniões em casa”. Para gravar os sambas do morro, convidou Nara Leão, que, no entanto, não se entusiasmou com a ideia. “Tive que convencê-la, pois ela ficou um tanto reticente ao ouvi-los cantar”. Abaixo, os melhores trechos da entrevista.

Quando se fala em Bossa Nova, três nomes vêm à memória de todos: Vinícius de Moraes, Tom Jobim e João Gilberto. Você se sente magoado por não estar nessa lista?

Nunca fui marqueteiro e colho os frutos da minha personalidade. O importante pra mim é que o Tom me admirava tanto quanto eu a ele. Ao mesmo tempo, ele se ressentia porque as pessoas o admiravam pelo motivo errado. Sempre por ser uma pessoa de sucesso que a mídia endossava, e não pelas qualidades musicais. O fato de eu não estar na lista só mostra a falta de conhecimento de quem não me coloca. Fazer o quê? O Tom tinha uma meta na vida, que era fazer sucesso nos Estados Unidos. Seguiu à risca e conseguiu. Eu nunca fui atrás disso. Não posso reclamar.

E como sentiu a chegada da Bossa Nova naqueles anos 60?

A música brasileira antes da Bossa Nova era mais dó de peito. Da voz pra fora, como a dos cantores de rádio. E nós da classe média não nos identificávamos com aquela realidade que não era a nossa, e curtíamos música americana, francesa, boleros mexicanos e os clássicos impressionistas. De repente, nascendo de uma necessidade de termos uma música brasileira que nos representasse, começamos a compor e deu no que deu. Mas com todas essas influências, é claro, mencionadas acima.

Dos artistas que trabalharam com você, compondo, Vinicius foi o mais importante?

Foi a parceria mais rica e um parceiro com quem mantive convivência frequente e grande amizade. Além de grande poeta e letrista, era um ser humano e amigo além das expectativas. Franco e honesto. Capaz de reagir mal a uma crítica e logo depois lhe dar razão. Só tinha um defeito: era extremamente ciumento dos parceiros e amigos, mas isso tornava as relações muito divertidas.

Millôr Fernandes disse que “ninguém é Lyra impunemente”. Ser Carlos Lyra foi um peso para você em algum momento?

Quando se é uma pessoa crítica e pública, você fica à mercê de tudo e de todos. No início era irritante ler algumas alfinetadas. Mas quando feitas por pessoas inteligentes eram engraçadas e desafiadoras.

Você não esconde sua admiração por Dick Farney, cantor que diz ter sido essencial para sua carreira como compositor. Por que se fala tão pouco dele?

Além do fato de a memória brasileira ser muito curta e de a mídia não prestigiar nossa história musical – preferindo dar ênfase às novidades, aberrações, atitudes, maquiagens, luzes e purpurinas –, acho que a educação e a cultura estão tão em baixa no País que ouso dizer que os novos cantores nem sabem quem foi Dick e a importância de sua maneira sofisticada de cantar.

Quais as lembranças que guarda de Nara Leão, que, como você, também foi atrás dos sambistas do morro?

Nara não foi atrás dos sambistas do morro. Eles que chegaram a ela – eu fiz o contato e tive que convencê-la, porque ela ficou um tanto reticente ao ouvi-los cantar.

Muitos críticos achavam a Bossa Nova culturalmente colonizada pela música estrangeira. Dizem que vocês discriminavam nomes como Ary Barroso. Como vocês enxergavam a música brasileira daquele tempo?

Nunca sofri essa crítica. Quem tinha birra com Ary era o Ronaldo Bôscoli. Sempre o considerei um precursor. Tanto que ele foi padrinho do meu primeiro disco e quem escreveu a contracapa.

Há muitas controvérsias em relação ao marco zero da Bossa Nova. Muitos consideram o LP Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, de 1958. Você contesta e diz que foi Chega de Saudade, de João Gilberto...

A Elizeth não era uma cantora com suíngue. A Bossa Nova é toda sincopada. O disco Canção do Amor Demais é de samba-canção. Por isso, considero o Chega de Saudade o primeiro disco. Ali estão todos os compositores da primeira geração representados e as músicas com o ritmo da Bossa Nova, todas tocadas por seu melhor intérprete: João Gilberto.

Sua primeira composição foi o samba-canção Quando Chegares, de 1954, que, segundo você, inspirou Vinícius de Moraes a escrever letras mais leves e menos rebuscadas. Foi isso mesmo?

Não sei se essa música inspirou Vinícius a escrever letras mais coloquiais. Mas, com certeza, as letras da Bossa Nova, nesse jeito leve e nada rebuscado, o inspiraram a modificar aquele modelo parnasiano que ele ainda carregava.

Eram procedentes as notícias sobre intrigas que dividiam os artistas ligados à Bossa Nova?

Um dos nossos problemas aconteceu por causa das gravadoras. A Odeon, que estava gravando o Chega de Saudade, do João Gilberto, propôs gravar um disco com todos os compositores e cantores da Bossa Nova. Aquilo se arrastou por meses e eu recebi uma proposta da Phillips para gravar meu primeiro disco solo. Falei que estava comprometido com a Odeon, mas ainda não tinha assinado o contrato com eles. Fui cobrar esse contrato mas acabei sendo enrolado e ameaçado de processo se gravasse na Phillips. Uma ameaça infundada porque não havia nada assinado. Aí a ficha caiu.

Qual ficha? A respeito do quê?

Estavam tentando prender todos de maneira que ninguém gravasse nada antes do João, para que a Odeon pudesse lançar o disco dele sem concorrência. Eu, cansado de esperar o tal contrato, assinei com a Phillips e meu disco foi lançado meses após o do João. E, como era de se esperar, eles não gravaram disco algum com o outro elenco.

Subir o morro do Rio e conhecer figuras como Zé Keti, Cartola e Nelson Cavaquinho, no início dos anos 1960, o levou a conhecer um outro Brasil musical?

Essa história é interessante. Fui junto com o produtor do cineasta Joaquim Pedro arregimentar figurantes para uma filmagem (do longa Cinco Vezes Favela). Subimos o morro da Mangueira e lá conheci o Cartola, que nos ciceroneou e intermediou o contato com os figurantes. Como diretor musical do CPC, minha ideia era fazer um intercâmbio cultural entre morro e asfalto. Cartola me apresentou a Nelson Cavaquinho, Zé Kéti e Elton Medeiros, tratei de fazer reuniões frequentes, em minha casa, para poder gravar aqueles sambas de qualidade que eles faziam e aos quais ninguém tinha acesso. Tive a ideia de gravá-los com uma harmonia mais sofisticada, mas achei que se uma menina de classe média alta os gravasse iria dar muito mais mídia. Assim os levei a Nara Leão – e saiu o disco que fez com que Diz Que Fui Por Aí se tornasse em um grande sucesso. Era outro Brasil musical, que o asfalto abraçou e ajudou a divulgar. Sinto muito orgulho e felicidade de ter participado disso.

Seu livro ‘Eu & a Bossa – Uma História da Bossa Nova’, de 2008, conta seu engajamento político, que acabou por levá-lo ao autoexílio. O que levou a essa escolha? Arrependeu-se dela?

Você passar seus dias olhando pela janela e vendo um carro preto estacionado na frente da sua casa, naqueles tempos, dava medo. Muitos companheiros tinham sido presos. Eu era do PCB e diretor musical da Rádio Nacional. Logo após o golpe (de 1964) soube que havia uma lista de músicas que estavam proibidas. Fui até à Polícia e contestei a listagem. Disse que Tom Jobim e vários outros não eram comunistas e nem mesmo de esquerda. Fui contestado. Disseram que a lista era dos que estavam contra o golpe. Eu disse que então colocassem o meu nome nela porque eu também era contra. Fui perguntado se tinha certeza do que estava fazendo – e fui embora pra casa morrendo de medo do que poderia acontecer comigo. Cheguei a ter um problema na coluna que me deixou de cadeira de rodas. Ao mesmo tempo não parava de receber convites para trabalhos nos Estados Unidos. Achei saudável não ser preso e torturado e conseguir continuar produzindo, me apresentando e sempre que possível defendendo em meus textos a volta da democracia.

De que modo isso afetou sua carreira?

Abandonei uma carreira ascendente no Brasil, é fato. Fiquei oito anos fora. Voltei, passei dois anos, tive um disco censurado e retornei aos EUA, para mais dois anos. Ficar de fora do mercado brasileiro por tanto tempo, é claro, estancou minha carreira. Mas, se eu tivesse ficado aqui, estaria vivo? Ou seria tão censurado a ponto de não poder gravar ou me apresentar? Não sei. Não guardo arrependimentos. Vivi a vida que escolhi.

[DE ANDRADE]

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