Nunca foi fácil pra ninguém

As mulheres descobrem cedo que nós, homens, somos bobos. O que não sabem é que nossa bobeira atinge um pico entre 14 e 17 anos de idade, quando, devido a um desequilíbrio hormonal e certamente seguindo todos os versículos da teoria da evolução, ficamos assombrados por uma ideia fixa, antes secundária: desvendar as mulheres.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2013 | 07h51

Antes dos 14 anos, nós as ignoramos. A não ser aquela que joga um bolão, bate com as suas pernas, cobra lateral, escanteio, desarma, dá o sangue pelo time e carrinho sem ser expulsa. Depois, observamos o arredondamento das formas e o desenvolvimento da forma labiríntica do pensamento feminino, raciocínio peculiar dominado por tramas, ritos e códigos secretos.

Passamos então a sentir algo muito diferente. Quer dizer, não nós, mas nosso corpo indomável, tomado por um desejo que muda a rotina e todo um projeto de vida. Nos transformamos num ser indescritível repleto de acne que cobiça todas, a professora de religião, de violão, particular ou não, a tia do amigo, a irmã do inimigo, a maluca da rua, a chapeira da lanchonete, a balconista da padoca, a vizinha, a motorista da van, a babá do priminho, uma amiga, a amiga da amiga, a rival da amiga, as invejadas pela amiga, enquanto secretam pelo hipotalo, cada vez mais, fatores que liberam hormônios que induzem a hipófise a liberar folículo estimulante, ativando a produção de testosterona pelas células intersticiais dos testiculosas, droga poderosa que intoxica os pensamentos, a fé, os princípios religiosos, explicação química para o popular "tesão", que Freud definiu como a libido que se desenvolve por fases desde a infância, etapas características do desenvolvimento, começando pela oral, anal, fálica, edipiana, até, ufa!, a genital.

Como as garotas de 14 anos, assim como as de 15 e 16, não dão a menor bola para os garotos da mesma idade e preferem aqueles caras que jogam rugby enquanto decidem qual faculdade cursar, nos dividimos em castas de fracassados, extravasamos a energia acumulada em outras experiências: xadrez, fliperama, álbuns de figurinha, aeromodelismo, coleção de super-heróis, pensamentos impuros, vandalismos em vasos sanitários ou poemas sujos, difamações e ilustrações eróticas em portas de banheiro, sem contar aqueles que não saíam do banheiro.

No meu caso, me juntei a um grupo conhecido como "comunistas". Aqueles desenganados que ficavam numa sala entulhada chamada Centro Acadêmico, ou "centrinho", que imprimia o jornal da escola que quase ninguém lia, atordoados em crise que encontram no existencialismo explicação e consolo para a falta de explicação para nossa existência e, vingança, as delas.

Dos 14 aos 17 anos, lemos Dostoievski, Kafka, Sartre e Camus, vimos filmes da nouvelle vague. Usávamos gola rolê, cabelos desalinhados, não sabíamos o funcionamento de lâminas de barbear, a não ser quando nos imaginávamos cometendo o suicídio iminente. As mulheres eram tão incompreensíveis quanto alguns diálogos de Godard e letras de Luiz Melodia.

Maconha nos deixava confusos e atrapalhava os infindáveis debates sobre o processo de Josef K, a náusea de Sartre, a dúvida de Ivan Fiodorovitch Karamazov, o crime de Raskólnikov, os efeitos da Revolução Cultural e os rumos da América Latina. Preferíamos a lucidez para desejar a tia do amigo, a irmã do inimigo, a maluca da rua, a amiga da amiga, a rival da amiga, a invejada pelas amigas, Léna Skerla, Yvonne Clech, Mona Dol, Jeanne Moreau, todas em Le Feu Follet (de Louis Malle), Brigitte Bardot e Jane Birkin, lógico, cantar no chuveiro "je vais, je vais et je viens, entre tes reins, je vais et je viens, entre tes reins, et je me retiens....", e invejar Gainsbourg. Sem desprezar as musas da Bota, Monica Vitti, Silvana Mangano, Claudia Cardinale e a patrícia Sônia Braga.

Claro, começamos a fumar. Uma defesa contra os laços da infantilidade que tentavam nos içar de volta à impuberdade. Cigarro = Rompimento. Buscar aliança e conforto na nicotina. Adquirir o fedor e a brutalidade do universo masculino.

Até a mãe de um amigo rico voltar da França com uma cartela de Gitanes. Que foi afanada e distribuída. Fumamos e guardamos os maços flip-top boxes azuis como um bem precioso. O refil era outro: um estoura-peito nacional. Para, nas festas, suarmos de cashmere e cachecol pelos cantos, encostados nas paredes com nossos falsos Gitanes, ignorando as garotas, já que nos ignoravam mesmo. Elas eram estúpidas, fúteis, vazias como pedras, e nos davam náuseas. Não nos mereciam. Sem contar que a vida não fazia sentido.

Então, surpresa. Aos 17 anos, umas menininhas mais jovens passaram a nos xavecar. Passaram a nos convidar para fumarmos nossos cigarros falsos no sofá, e não mais servirmos de escora de pilastras, paredes e muros. Nos puxavam para um ritual de acasalamento primitivo e curioso chamado dança. Filavam nossos cigarros fedorentos, nos perguntavam coisas. Disputavam nossa atenção. E nos víamos vítimas dos olhares invejosos dos seus amiguinhos. Nos víamos deixar o navio condenado à deriva dos "losers" para entrar no iate "onássico" em busca de prazeres e praias paradisíacas, experimentar perfumes e peles inacreditavelmente suaves e bem tratadas.

Coladinhos, um pra lá e dois pra cá, sentíamos seus peitinhos esmagados nos nossos, suas coxas se enroscando nas nossas, suas bundinhas duras esbarrando, provocando reações. Elas sentiam volumes que surgiam e desapareciam graças a seus esforços. Dependia da posição, da pressão de seus corpos, do suingue. Elas se deslumbravam pelo poder que tinham sobre um membro que era nosso! Sentíamos suas mãos acariciando nossas nucas, costas, coxas. E enfim lábios delicados, desesperados, inexperientes, línguas insanas, gemidos. Descobríamos juntos o complexo jogo do querer e não poder, ter que esperar, controlar. E de algo mais familiar nas mulheres, a culpa!

Porém, tinha muito rancor acumulado. Anos de desprezo não seriam reparados numa festinha de luz apagada com Je T’Aime – Moi Non Plu na vitrola. No mais, éramos a fim mesmo das suas irmãs mais velhas, que a essa altura rompiam barreiras e navegavam mares mais turbulentos do sexo sem culpa, fecundo e consentido. Vingança boba. Bobeira masculina. O darwinismo deve explicar tudo isso. Pois dependendo dos existencialistas...

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