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Nunca fiz mal a ninguém

Fui criada para condenar a truculência, a falta de empatia, a mediocridade

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

28 Outubro 2018 | 02h00

Eu nunca fiz mal a ninguém. Minhas mãos nunca agarraram um punhal com força, nem meu braço o direcionou com violência contra um peito qualquer. Meus dedos nunca puxaram um gatilho e minha roupa nunca esteve encharcada de sangue quente. Não, eu nunca fiz mal a ninguém, posso garantir.

Minhas mãos estão limpíssimas e minhas cordas vocais também. Nunca disse que alguém deveria morrer, nunca berrei impropérios pelas ruas, nunca comemorei a doença de outra pessoa, nunca estourei champanhe, prosecco ou cava para celebrar a prisão de quem quer que fosse. Sempre soube que celebrar a tristeza alheia é uma forma muito doentia de ser feliz.

Nunca usei o meu dinheiro para comprar silêncio, muito menos para comprar gritos escandalosos. Nunca comprei uma arma, com exceção do meu secador de cabelos, que insiste em cair constantemente sobre o dedinho do pé. Nunca dei armas de presente a uma criança. Insisto em dar livros. E essas crianças rebeldes insistem em gostar deles. É literalmente o amor nos tempos do cólera.

Nunca fiz ameaças. Pelo menos não depois de adulta. Nunca disse a alguém “sua hora vai chegar”, “comece sua contagem regressiva”, “é bom começar a ter medo”, “é bom já ir se acostumando”. Nunca tive vontade de fazer o outro sentir medo de mim ou de quem me escolta. Nunca quis ser uma fonte de angústia.

Nunca disse que alguém mereceu o mal que lhe ocorreu. Nunca gritei “bem feito!”, exceto quando minha irmã caiu do beliche logo depois de me assustar com uma barata de plástico. Nunca dividi as pessoas em espécies: aquelas que merecem sofrer e aquelas que não merecem. Na verdade, nunca dividi as pessoas em qualquer tipo de espécie. São pessoas.

Não me sinto feliz ao receber o vídeo de um suposto homem casado numa orgia. Não me sinto feliz ao ver um homem receber uma facada na barriga. Não me sinto feliz quando um político, o filho de um político ou um juiz morre num acidente aéreo. Não me sinto feliz com um homem velho na cadeia. E simplesmente não consigo acreditar que alguém possa se sentir feliz com qualquer coisa dessas. Essas pessoas precisam de ajuda.

Nunca chamei o sofrimento alheio de vitimismo. Nunca questionei a profundidade ou a legitimidade da dor do outro. Nunca neguei o fato de ser uma pessoa privilegiada e nunca me senti ameaçada pelo suporte dado aos que não usufruíram dos mesmos privilégios que eu. Nunca tentei subtrair direitos alheios em nome do meu conforto e egoísmo. Não. Eu nunca fiz mal a ninguém.

Nunca fiz mal a ninguém. Nunca condenei nenhum tipo de amor. Fui criada para condenar a truculência, a falta de empatia, a mediocridade, a hipocrisia. Jamais para condenar qualquer gênero de manifestação de afeto, seja de quem for, em relação a quem for, onde for. Sempre gostei do amor e acho que isso fez com que o amor também gostasse de mim. Tudo o que vai volta. Seja amor ou seja ódio. A vida é uma eterna estrada de mão dupla.

Minhas mãos seguem limpas, seja quando for. Depois de escrever uma crônica, depois de fazer uma faxina, depois de rezar à noite, depois de votar num domingo triste. Minhas mãos são mãos para fazer cafuné, para digitar palavras boas num teclado, para conduzir mãozinhas menores por caminhos alegres. Minhas mãos não derramam sangue, nem por conta própria, nem por contra de outrem. Coisa rara hoje em dia.

Minha consciência está tranquila. Durmo noites serenas, sem precisar de nenhum tipo de remédio tarja preta. Dou boa noite aos meus pais, beijo a testa das minhas crianças, agradeço mais um dia ao lado daquele que eu amo. E apago a luz, com as minhas mãos magras e fracas, porém limpas, muito limpas. Me deito, serena de que faço o melhor que consigo, de que amanhã farei tudo de novo. E com a certeza de que não, efetivamente, eu nunca fiz mal a ninguém. 

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