''Nunca faço julgamento moral sobre o personagem''

Ben Kingsley[br]ATOR

Entrevista com

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2010 | 00h00

Sir Ben Kingsley ainda está nas telas como diretor do manicômio de Ilha do Medo, de Martin Scorsese. Sem querer tirar a graça de quem ainda não viu o filme, ambos os personagens de Ben seguem trajetórias opostas. Um parece do mal e é do bem. O outro oculta natureza maligna sob um manto de falsidade.

Como é criar personagens tão distintos?

Nada de mais. Ouvia Martin dizer como eu havia feito um trabalho extraordinário para colocar na tela a sutileza do meu personagem em Ilha do Medo. Não retrucava, porque é lisonjeiro ser elogiado, mas criei o personagem de Ilha como o do Príncipe da Pérsia, ou seja, tentando ser fiel a ambos. Como ator, minha regra é servir ao personagem. Para isso, me abstenho de fazer julgamentos morais sobre ele. Um personagem não vale sozinho, faz parte de um conjunto. Nizam não é necessariamente um vilão. Há em Shakespeare personagens como ele, mordidos pela inveja, corroídos pelo desejo do poder. Procurei não realçar suas características negativas, para não transformá-lo em caricatura.

O que havia de tão interessante nessa história, para você?

Acho que o Príncipe fala de algo importante - o potencial de cada pessoa. O filme é sobre um menino das ruas que vira príncipe. Imagino que possa ser estimulante para os jovens, pois incentiva-os a se questionarem sobre seu potencial. O menino das ruas não é inferior, pelo contrário, ao do palácio. Não se trata de vender uma fantasia. A ideia do filme é que o crescimento de Dastan se faça por meio de escolhas. É uma bonita história de rito de passagem.

Você vai adaptar o clássico literário O Primo Basílio, de Eça de Queiroz. Como veio seu interesse?

Não difere do meu interesse por Shakespeare. Eça é um grande escritor. Vou produzir o filme para que minha mulher (a atriz brasileira Daniela Barbosa) o interprete. O livro provocou escândalo ao surgir e queremos resgatar a força inovadora que teve na época.

Há uma adaptação feita por um diretor brasileiro (Daniel Filho).

Ah, é? Gostaria de conhecê-la. Nenhuma adaptação é definitiva, é sempre um olhar e, como tal, pode ser enriquecedora.

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