Denise Andrade/AE
Denise Andrade/AE

Num mar calmo de palavras encantadas

Novo livro de José Eduardo Agualusa, Milagrário Pessoal, fala da aventura de construção da língua portuguesa

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2010 | 00h00

Iara, jovem linguista portuguesa, tem uma missão peculiar: todos os dias, ela recolhe as palavras novas que são incorporadas à língua portuguesa e dicionariza aquelas que realmente configuram um neologismo. Até o dia em que ela descobre algo errado - alguém vem subvertendo o idioma de forma avassaladora e irrecuperável. É com esse tom de mistério que o angolano José Eduardo Agualusa apresenta seu novo romance, Milagrário Pessoal (Língua Geral), na verdade, uma homenagem à riqueza da língua portuguesa.

"A paixão pela palavra me motivou a escrever esse romance", conta ele, que lança hoje a obra na Livraria da Vila da Fradique Coutinho. Durante o evento, a atriz Bete Coelho lerá um trecho da história. Sobre o processo de criação, conversou por e-mail com o Estado.

O romance mostra a língua como um tesouro. Nesse caso, seria o livro uma crítica ao acordo ortográfico?

Não, este acordo ortográfico tem muitos erros, mas acho que não faz sentido haver mais do que uma ortografia dentro de um mesmo espaço linguístico. Senão porque não várias ortografias dentro do Brasil, por exemplo? A ortografia não altera a forma como as pessoas falam. O acordo visa a simplificar a ortografia, favorecendo a alfabetização, o que me parece importante para o Brasil. É também importante para países como Angola e Moçambique, pelo mesmo motivo, e também porque nesses países a maioria dos livros é importada, de Portugal e Brasil, ocorrendo esse problema de duas ortografias dentro de um mesmo país. Então, não. Milagrário Pessoal é, sim, um romance sobre essa extraordinária aventura que foi, que é, a construção de uma língua, no caso a língua portuguesa.

Qual seria a melhor política da língua?

No caso do Brasil passa pela alfabetização das suas populações, pela construção de bibliotecas, etc., e isso está sendo feito. Mas passa também por promover a língua no exterior, apoiando por exemplo as traduções e edições de autores de língua portuguesa, apoiando a música e outras formas de criação artística que trabalham com a língua. Recentemente estive na Alemanha e Itália. Uma das minhas editoras, na Itália, fala um português muito bom. Perguntei-lhe onde aprendera e disse-me que fora jogando capoeira. Então até a capoeira pode divulgar a língua.

O que o levou a escrever um romance em que a língua é praticamente o personagem principal?

A paixão pela língua, pela palavra. Como nasce uma língua? O que aconteceria se, de repente, como no meu livro, a língua começasse a ser enriquecida por milhares de neologismos mais do que perfeitos - uma "língua dos pássaros"? Pensamos com palavras, então o nosso pensamento pode ser aguçado por determinadas palavras?

O livro incentiva uma reflexão sobre a palavra? Qual o poder que tem a palavra hoje, em um mundo cada vez mais imagético?

A palavra não perdeu o seu poder. O cinema, por exemplo, não voltou a ser mudo. Os garotos hoje escrevem muito. São capazes de ler livros imensos e complexos. Um garoto de 8, 9 anos, que leu todos os livros do Harry Potter, vai ler Em Busca do Tempo Perdido aos 19. Estamos formando grandes leitores.

Em Ouro Preto, Luandino Vieira disse que, para ele, uma palavra vale mil imagens, e não o contrário, como se costumou aceitar. Concorda?

Concordo, em parte. Há palavras capazes de evocar todo um universo. Nem todas as imagens conseguem isso. No meu livro um dos personagens afirma: "Há versos onde cabe inteira a minha infância." É um pouco isso.

O livro também mistura realismo com um universo mágico, mas não é fácil delimitar os territórios em que cada um habita. Por quê?

O universo onde vivo é um pouco assim. Numa cidade como Luanda as pessoas nem sempre são capazes de estabelecer uma fronteira entre a realidade e o maravilhoso. Acho que é assim em toda a parte. Pense bem, quantas pessoas acreditam na existência de um homem que tinha o poder de caminhar sobre as águas?

A capa tem uma sereia, cujo canto sugere um feitiço. Para se livrar desse feitiço, é preciso tapar os ouvidos e os poros do corpo. Seria uma forma de mostrar os perigos sofridos pela língua e sua porosidade às novidades?

Sou fascinado por sereias. Talvez porque eu me chame Agualusa, um termo que designa o mar muito calmo e iluminado. Este livro pode ser uma espécie de jogo de palavras, cheio de pequenos enigmas, de histórias que se cruzam e explicam outras. Foi divertido escrevê-lo.

TRECHO

"Naquela noite aconteceram tigres e foi assim pelo país inteiro. Na cidade de São Paulo da Assunção, a que os mais antigos, como eu, ainda dão o nome de Luanda, uma centena desses...

...grandes gatos silvestres cruzou com suas ágeis patas de veludo a dormência da Ingombota. Muitos os viram. O lume dos olhos riscando o error da madrugada, detendo-se aqui para cheirar as brasas de uma fogueira (...), ali para sorver a fatigada lama de alguma cacimba."

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