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Humberto Werneck
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Nudez racionada

Entre o naufrágio do Jornal da República e uma nova encarnação na Veja, abriu-se em minha vida de jornalista um parêntese de dez meses - janeiro a novembro de 80 (do século 20, acredite) - para mim inesquecível. Não houve pausa: no dia seguinte à consumação do desastre, o mesmo Mino Carta que me abrira espaço naquela canoa furada proporcionou-me um escaler, sob a forma de um convite que me fez o irmão dele, Luís Carta, para editar uma revista de gastronomia. Estava hesitante quando meu amigo Gilberto Mansur me veio com proposta mais sedutora: trabalhar na Status, pioneira revista de mulher pelada, anterior à Playboy. Minha mãe, lá em Minas, só faltou morrer de vergonha, e se achou na obrigação de informar, sempre que o assunto vinha à baila: mas ele não tem nada a ver com as fotografias, cuida só da parte escrita! Não sabia que mais adiante o filho encararia prolongada recaída na Playboy.

Humberto Werneck,

27 de abril de 2014 | 02h13

A Status, hoje rediviva, era uma ótima revista, ainda que produzida sob a pudicícia do regime militar, implacável na imposição de cortes a que muitas vezes faltava lógica. Houve caso, já não sei se ali ou na concorrência, em que a Censura liberou um seio mas vetou o que lhe fazia par. Se ao menos fizessem o mesmo com as tetas do serviço público...

Em meio a tais vicissitudes, o Mansur se desdobrava, daí resultando uma revista que, além de racionada carne humana, oferecia aos leitores uma produção literária de primeira ordem. Não só promovia concursos de contos - um deles vencido por ninguém menos que Rubem Fonseca, com o proibido O Cobrador - como dedicava ao gênero caprichadas edições especiais.

Para mim, a experiência incluiu, de saída, o choque cultural que foi a mudança da Avenida Paulista para um pardieiro à beira de uma linha de trem, no bairro da Lapa de Baixo. Nunca houve Lapa mais de baixo do que aquela. Numa tarde fria e nublada (por fora e por dentro), fomos, o Mansur, o Zezé Brandão e eu, conhecer as novas, na verdade velhíssimas instalações da Status. Lembro de estarmos os três na futura sala do dono da editora a contemplar, macambúzios, através de vidraças encardidas, rachadas ou faltantes, um panorama cuja minuciosa feiura sugeria a pior das periferias de Calcutá.

Hoje confortável (é o que me dizem), o pardieiro da rua William Speers teria abrigado uma metalúrgica, explicação para a fuligem negra suspensa sobre nossas cabeças, pois não havia forro. A passagem do trem chacoalhava o idoso casarão, fazendo desprender-se das telhas e das vigas uma fina neve negra que ao final do dia havia polvilhado nossas mesas, cabelos, pulmões e, sobretudo, nossas almas.

Divisórias baixas de alvenaria nos separavam das redações de outras revistas, entre elas a Planeta, a Hippus e a Som Três. Havia também um refeitório onde estive uma única vez e que me fez pensar num orfanato de romance de Charles Dickens. Sob luz precária, os comensais disputavam lugar a salvo das goteiras nas compridas mesas. O conteúdo jamais coincidente de suas marmitas liberava no ambiente um enjoativo esperanto olfativo.

Redator, eu não participava (mamãe não mentia) da produção de ensaios de mulher nua - um dos quais realizado ali mesmo, na redação, fora do expediente, tendo por cenário uma parede branca de tijolos aparentes. Estávamos, não só na Status, a anos do photoshop que viria permitir a terraplenagem de celulite, verrugas e estrias, mas nosso diretor de Arte, o Douglas, dava um jeito. Não me lembro de reclamações - a não ser no dia em que servimos ao leitor Bruna Lombardi numa cama de hospital, num ensaio em que, como no Pequeno Príncipe, o essencial era invisível para os olhos, eclipsado que fora por um televisor portátil estrategicamente pousado nos lençóis. A fúria do macho brasileiro pareceu despencar, unânime, sobre a William Speers.

Teve a beldade que literalmente se ralou nas ostras, quando, em meio à sessão de fotos, escorregou num rochedo à beira-mar. A moça sobreviveu e também o ensaio, pois no instante da queda o fotógrafo já tinha com que rechear as páginas da Status.

Guardei lembrança de história melhor ainda, que não cabe aqui, e se não houver objeções posso contá-la dia desses.

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