Nudez Premiada

Cleyde Yáconis relembra como salvou Nelson Rodrigues ao aceitar participar da antológica montagem de Toda Nudez Será Castigada

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2012 | 03h09

Cleyde Yáconis foi enfática: "Não podemos deixar de fora a cena em que Geni diz que lava o sexo em uma bacia", disse ela, referindo-se a uma das várias cenas que afugentaram diversas atrizes da primeira montagem de Toda Nudez Será Castigada, em 1965. "É essencial." O diretor Marco Antonio Braz apenas sorriu: "Não se preocupe, a cena estará na íntegra em nosso texto", respondeu ele, durante o encontro, na terça-feira, preparatório para o recital Elas Não Gostam de Apanhar.

A preocupação da grande atriz não era fortuita - Cleyde teve uma decisiva participação no sucesso da peça que, depois de estrear no Rio em junho de 1965, ficou seis meses em cartaz no Teatro Serrador, recebendo aplausos em cena aberta e ovação no final, seguida de uma excursão pelo País.

Tudo começou com um desesperado telefonema do próprio autor. "Eu estava em Porto Alegre, participando de uma peça ao lado do Walmor Chagas, quando recebi o chamado do Nelson", relembra Cleyde. "Estranhei pois eu nunca havia falado antes com ele."

Do outro lado da linha, o dramaturgo pedia - na verdade, rogava - para a atriz aceitar o papel principal de seu novo espetáculo. "Estou com a produção montada, elenco escolhido, teatro reservado, só falta a protagonista", disse Nelson, cansado de ouvir negativas.

A lista, de fato, era grande: "O personagem principal me repugna", disse Gracinda Freire à revista Fatos e Fotos, segundo relato de Ruy Castro na biografia O Anjo Pornográfico (Companhia das Letras). "Li e recusei. Não por uma questão de puritanismo, mas de categoria. A peça é ruim", decretou Tereza Rachel à mesma publicação.

A história do pai que não consegue manter a promessa de castidade que fez ao filho depois da morte da mulher - afinal, apaixonou-se por uma prostituta - afastou também alguns atores, como Rodolfo Mayer, que confessou publicamente: "Se quiserem, podem me chamar de covarde, mas não tenho coragem de aceitar esse papel".

De fato, Nelson Rodrigues não abrandava em seus textos - trágicos em sua aparente banalidade, oprimidos sob o peso de uma religião arcaica e castradora, os personagens rodriguianos tentam matar dentro deles desejos, pulsões e instintos que acabam por explodir nas mais tortuosas maneiras. Mas, quando isso ocorre, divididos pela contradição entre desejo e culpa, só no sofrimento ou na morte encontram a redenção de seus pecados.

"Eu sempre me sentia dividida em relação ao Nelson, um homem ao mesmo tempo terrível e maravilhoso", observa Cleyde. "Mas, naquele telefonema, pude notar a extensão de sua angústia, especialmente pela recusa de Fernanda Montenegro." Explica-se: Toda Nudez fora uma encomenda de Fernanda que, após ler o primeiro ato, afirmou que não poderia encenar pois estava grávida. O filho Cláudio nasceria meses depois mas, ao contrário de suas colegas, Fernanda sempre defendeu o texto de Nelson.

Animada com os detalhes da produção (a direção seria de Ziembinski e o elenco contava com atores de sua estima, como Luis Linhares e Elza Gomes), Cleyde aceitou a empreitada, mesmo com o risco de chocar a plateia ao simular higiene íntima com uma bacia. "Era o retrato perfeito daquele tipo de mulher: pobre, prostituta, que fazia as necessidades em um penico e as jogava pela janela", comenta. "Geni, portanto, é fascinante porque é real."

Durante os ensaios, Nelson quase não conversou com a atriz, mantendo-se esquivo embora atento. "Era um homem tímido por conta da feiura, e que só extravasa por meio de seus textos", observa ela, também oferecendo outra versão, mais safada. "Nelson gostava de atrizes bundudas e carnudas, o que nunca foi meu perfil."

E continua não sendo - próxima dos 89 anos (completa em 14 de novembro), Cleyde Yáconis exibe um corpo franzino de apenas 49 kg. Com alimentação balanceada (come pouco e sempre a cada três horas), exibe uma agilidade que só não é mais elástica por conta de um acidente sofrido há dois anos, quando fraturou o fêmur. "Desde então, caminho com muito cuidado, temendo qualquer buraco."

Irmã de outro mito da cena brasileira, Cacilda Becker, ela preserva ainda uma rotina monástica, na chácara onde vive há anos em Jordanésia, cidade perto de Jundiaí. "Não frequento rodas sociais e acho que, no máximo, só sete pessoas já me visitaram em casa", diz, com ponta de orgulho. "Mesmo por telefone, não sou tão acessível."

Nenhuma mágoa ou ressentimento: o teatro é o meio preferido para ela manter contato com o mundo. Cleyde não alimentava a carreira artística como a irmã, até estrear como atriz em 1950 por acidente - subitamente adoentada, Nydia Licia precisou ser substituída em O Anjo de Pedra, de Tennessee Williams, em montagem do Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC. Então responsável pelo guarda-roupa, Cleyde, já vocacionada para tarefas consideradas impossíveis, subiu ao palco e logo se tornou uma das atrizes mais empenhadas da companhia.

Foi o primeiro passo para a construção de um repertório respeitável que já beira a centena de peças encenadas. "Nunca vou atrás de algum texto - só monto as peças que me foram oferecidas e que me deixaram intrigada por conta das opções de caminhos dramáticos", conta. De fato, desde que brilhou, em 2003, no clássico Longa Jornada de um Dia Noite Adentro, de Eugene O'Neill, ela só voltou ao palco em três oportunidades: Cinema Éden dois anos depois, A Louca de Chaillot (2006) e O Caminho para Meca, em 2009.

Por conta disso, não sabe se encabeçará mais algum projeto no futuro. "Acredito ter forças para viver até os 92 anos. Depois, nem sei se a Terra sobreviverá, graças a tanta catástrofe climática", vaticina, confessando já ter reservado seu jazigo, "para evitar dor de cabeça aos amigos". O tom de desgraça, no entanto, dura pouco, pois logo Cleyde abre um sorriso que brinca em torno das bordas de sua boca, ameaçando materializar-se diante da mínima provocação. Quando finalmente se espalha por seu rosto, lenta e tranquilamente, transforma essa senhora basicamente normal em um mulher encantadora.

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