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Nu sem pelo

Se você já não é exatamente jovem (desculpe tocar no assunto), recomenda-se cuidado ao abrir a boca. De lá pode sair isso que seria um carbono 14 vocabular.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2014 | 02h06

Não preciso explicar que carbono 14 é aquele isótopo radioativo usado para determinar a idade de ossadas de dinossauro e outras antigualhas.

Não, não estou, logo eu, chamando você de dinossauro. Ou estou? Como diz a moçada: tipo assim, mas não. Refiro-me àquelas palavras capazes de datar inequivocamente quem as utiliza.

Por mais que você, já distante da juventude, queira parecer uma pessoa moderna, atualizada, uma pessoa "para a frente", o emprego de determinados termos haverá de denunciar seu tempo de janela neste mundo. Discar em vez de teclar. Disco em vez de CD. Creme rinse em plena era do condicionador. Fecho éclair, e não zíper. Vitrola. Motoca. Dentifrício.

Tenho uma amiga que, embora "para a frente" (especialista, faz questão de declarar, em "hippismo", desde que o sobrinho, décadas atrás, "entrou para hippie"), segue dizendo máquina de retrato, e oculista em vez de oftalmo. Só falta perguntar, quando bate vontade de ir ao cinema: que fita estão levando?

Não estou propondo que se caia no ridículo de macaquear a juventude, mas convém, de tempos em tempos, dar uma atualizada no glossário. Demorou, diria o menino ou a menina. Ou será que já não se diz "demorou"? Parece que caiu, dando lugar a "já é". Já era.

Numa época em que pululam aplicativos, deveria existir algum para socorrer os interessados em desempoeirar o vocabulário. Nesse terreno, gente madura periga sentir-se antediluviana como um gay que tenha saído do armário ainda ao tempo dos guarda-roupas comprados em loja.

Na ânsia de modernização, não basta iniciar a frase com "então", ou cravar um "tipo" a cada meia dúzia de palavras. Você pode não estar sabendo, por exemplo, que "sinistro", além de coisa ruim, qualifica coisa apetecível. Ou que "partiu!" vale por "vamos embora!" Tipo assim, mó moderno!

O tal aplicativo serviria também para informar sobre o retorno de vocábulos aparentemente condenados ao porão de depostas utilidades verbais. É, acontece. Os adjetivos "massa" ou "bacana", por exemplo, já não são distintivos da terceira idade, ao lado da artrose e da dor na cacunda. Viveremos o bastante para ver a reabilitação de "supimpa"?

Já que comecei falando em boca, peço que repare também no fenômeno da proliferação dos aparelhos ortodônticos. Quem vivia até agora sem problemas com seus dentes tortos passou a se sentir desconfortável depois que tanta gente começou a se equipar com ferragens bucais. O que outrora se chamava, em tom depreciativo, de "sorriso blindado", parece estar em vias de tornar-se obrigatório. Estou vendo a hora em que até as espinhas (lembra delas?), num infeccioso revival, serão, entre jovens, indispensável adorno facial.

Não há nada como um dia atrás do outro, recitaria minha amiga avançada. Antigamente, você pensava duas vezes antes de beijar alguém que usasse aparelho. Dois bicudos aparelhados que se beijassem, dizia-se, corriam o risco de acabar enganchados um no outro.

Hoje, o moço ou moça quase precisa pedir desculpas por não exibir cintilação metálica nos dentes - razão pela qual tem gente com dentição irretocável recorrendo até a clipes de escritório para improvisar simulacros de aparelho. Considerados também os piercings, não é absurdo antever o dia em que, como arma para atrair o objeto do desejo, o arsenal da conquista amorosa vai incluir o ímã.

Passo por cima de outro item generalizado, a tatuagem, e me detenho na moda, entre os rapazes, de depilar não só as sobrancelhas como outros territórios corporais, inclusive os mais recônditos. Foi-se o tempo em que homem se depilava apenas para receber no peito os eletrodos do eletrocardiograma.

Sempre haverá quem prefira parceiros mais ou menos carpetados, mas tenho notícia também de casos de rejeição dos que resistem ao desmatamento promovido pela lâmina de barbear. Um jovem amigo me contou do quase asco da moça quando o viu duplamente em pelo: "Mas você parece um cachorro!". Foi um custo convencê-la a não cair fora, diz o moço, sem saber até quando vai aguentar a pressão para aderir ao cardume cada vez mais encorpado dos bagres ensaboados: "Nu em pelo, agora, só sem pelo...".

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