Nu artístico no Ibirapuera mobiliza 850 voluntários

O jornalista Robson tem um sonho recorrente: ele dorme e se vê nu, andando dentro do metrô de São Paulo ou passeando pela Avenida Paulista. O rapper Big Richard quer mostrar que "black is beautiful" no meio da multidão. Anaturista Kátia ficou nua em público pela primeira vez quandotinha 14 anos, na Praia do Pinho, em Santa Catarina - desdeentão, tirar a roupa virou rotina para ela. A personal trainerAlice ajuda as pessoas a entrar em forma e acha que é um bommarketing mostrar o que é a boa forma - ela mesma como a peçapublicitária.Robson, Kátia, Big Richard e Alice são algumas das 850pessoas inscritas (até a noite de quarta) para tirar a roupa noensaio fotográfico do artista americano Spencer Tunick, que devemovimentar na madrugada de sábado a região em frente do obeliscodo Parque do Ibirapuera, em São Paulo. A performance de Tunick,denominada Nude Adrift, já levou 4,5 mil pessoas a posaremnuas na Austrália e, na semana passada, arrebanhou outras 450pessoas em Buenos Aires.A variedade de tipos humanos que Tunick conseguiu éimpressionante. Há um ator de 140 quilos que duela com aobesidade, casais gays, mulheres que querem exibir seus novosimplantes de silicone, gente que veio do Rio de Janeiro só paraa foto.Tem um sujeito que acha que é discriminado por ser muitobranco. Um estudante cujo maior medo é ter uma ereção no meio damultidão nua. Um seminarista protestante que teme o risco de serreconhecido na comunidade em que atua. "O meu problema é quevou estar de plantão na manhã seguinte e vou ter de acordarmuito cedo", diz o jornalista Robson Bertolino.O advogado Carlos Coelho, de 62 anos, morador do ABC,conta que viajou o mundo todo, fala cinco línguas e freqüentou"praticamente todas" as praias nudistas do mundo. "Por essarazão resolvi participar: farei nudismo na cidade que nasci eque amo. Simples assim", relata Coelho.Para o advogado, pouco importa o que Spencer Tunickpretende, "mas sim o que eu pretendo", afirma. E o que elequer é "uma, digamos, praia nudista em minha querida Sampa". Etambém parece claro a Coelho que ele pretende satisfazer suacuriosidade, "como observador das reações dos que para alivão", observa."O problema vai ser o primeiro tirar a roupa, depoisvai ser fácil", analisa o estudante Antonio Carlos Marques, de22 anos, que topou o desafio, mas não conseguiu convencer anamorada a fazer o mesmo. "Ela ficou com vergonha", conta ele,que vai ficar nu para "desafiar um tabu social". Para Marques,a idéia de Tunick é mostrar que "não precisa estar de roupapara viver em sociedade".Os inscritos parecem estar tranqüilos para a sessão damadrugada. Mas têm lá seus medos. "Vou tentar evitar, mas tenhomedo de ter uma ereção", diz o estudante Eduardo Numa, de 22anos. "Já pensou em uma ereção coletiva?", diverte-se. "Sevocê vê uma mulher bonita, peladona lá, pode acontecer, não? Énatural."Numa acredita, no entanto, que a intenção de Tunick nãoé criar polêmica, mas registrar uma "escultura viva" em suasfotos. "Acho que todo mundo que está indo tem uma cabeça boa evai acontecer tudo de forma natural", acredita.Para D.L., seminarista de 25 anos, o objetivo de Tunické "enaltecer o fabuloso corpo humano". D.L. vai integrar obatalhão nudista por "gostar da idéia" do artista e conta quevai sozinho. "Meus familiares estão no Nordeste e eu morosozinho aqui", justifica."Somente hoje eu comecei a imaginar a cena", conta apersonal trainer Alice Borelli, de 40 anos. "Será que não vaificar todo mundo se olhando, comparando?", diverte-se. Ela nãotem receio que seus clientes desaprovem sua forma ao verem asfotos. "Acho que eles vão gostar", considera.A performance recebeu inscrições de interessados em ficar nusaté hoje, pelo e-mail bienal.spencert@uol.com.br. O ensaio temprevisão de duração de no máximo 30 minutos e todos os queparticiparem receberão a foto do evento. Fotos de performancesanteriores de Spencer Tunick estão expostas na 25.º Bienal, no1.º andar do pavilhão.Nos últimos oito meses, Spencer Tunick viajou por várioscontinentes do mundo fotografando multidões para conseguirmontar "aglomerados de esculturas humanas". Tunick escolheu oBrasil para encerrar a turnê Nude Adrift pelo mundo."Faço nu artístico já há algum tempo", conta a modeloKátia Fernandes, de 29 anos, uma das voluntárias de Tunick."Comecei como naturista, com minha família, mas nunca fiz nadamais apimentado, com conotação erótica", ela conta. Éjustamente a visão artística de Tunick que a atraiu."Às vezes me sinto como um explorador, às vezes como umcriminoso, às vezes como um artista", diz Spencer Tunick."Enquanto muitos trabalhos de artistas contemporâneos são muitocontroversos, eu sinto que meus nus não são controversos",afirma. "A controvérsia repousa no fato de que estou usando acidade como minha paisagem; as condições no qual crio meutrabalho são tensas, malucas e imprevisíveis; meus modelos sãoaventureiros urbanos; eu os ajudo a ver o mundo de uma maneiradiferente, crio sonhos e memórias que eles poderão carregarconsigo para sempre."

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