Novos e instigantes processos de pesquisa

Trabalhos desenvolvidos pelo Rumos Itaú apontam para grandes mudanças

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

23 de março de 2010 | 00h00

Nos últimos anos, uma preocupação sobre o que distinguiria uma pesquisa em dança de uma coreografia feita sem pesquisa começou a mobilizar, cada vez com mais frequência, as conversas nessa área. Sensível a esse cenário, o Programa Rumos Dança decidiu fazer dessa encrenca o seu foco e, corajosamente, propôs um edital para a exibição de processos de pesquisa e não dos espetáculos que deles resultam. A novidade mobilizou 504 inscrições de distintas regiões do Brasil. Desse total, uma comissão formada por Marcelo Evelyn (Teresina), Christine Greiner (São Paulo), Alejandro Ahmed (Florianópolis), Vera Sala (São Paulo) e Lia Rodrigues (Rio de Janeiro) selecionou 21 para serem apresentados em dez dias de progamação.

O principal saldo da inovação que caracterizou o seu décimo ano de existência foi ter dado visibilidade para o que já se intuía: ainda não está claro o que é processo de pesquisa em dança. A dificuldade em distinguir um processo de um produto final em fase de ensaio marcou a maior parte dos 21 projetos apresentados. Ora, se isso ocorre como um traço comum, há que se identificar o que produz tal situação e, depois, descobrir o que pode ser feito, daqui em diante. Discussões reunindo os participantes e a comissão de seleção, ocorridas durante algumas manhãs da intensa programação, colaboraram para que um pontapé inicial fosse dado na direção de um primeiro e indispensável ajustamento desses (des)entendimentos.

Não vale desanimar, ao contrário. Todos nós ? público e artistas ? viemos sendo treinados a encontrar/produzir somente espetáculos. Processos pedem habilidades cognitivas que ainda não desenvolvemos bem. Como se trata de preocupação recente, não poderiam mesmo existir respostas prontas. Sendo um processo, ele possivelmente estará em certo estágio de maturação, não coincidente com o de um outro processo. Como lidar com tais variáveis? Qual o papel que esse mostrar ocupa em relação ao que está sendo exibido? A quem interessa, de fato, essa atividade?

O Rumos Dança elegeu o blog como o espaço oficial e obrigatório de compartilhamento. Cada projeto selecionado precisou criar o seu blog e passar a tratá-lo como um registro público do seu processo, postando o que considerasse capaz de cumprir essa função. Cabe agora uma avaliação sobre a performance desses blogs em relação ao que se viu ao vivo nos três espaços escolhidos para as 21 apresentações: Teatro Coletivo, Centro Cultural São Paulo e a sede do Itaú Cultural. O que garante o blog? Vale refletir sobre a sua eficiência em duas pontas de atuação: na comunicação com o público e na produção da pesquisa.

A maioria mostrou coreografias um pouco mais e um pouco menos prontas. Mas os poucos que testaram outros modos de lidar com os materiais de dança deixaram claro que estavam implicados a promover uma mudança enorme. Que não se tratava somente de descobrir uma outra embalagem estética, mas sim, de questionar o que, de fato, determina quando uma obra de dança merece ser mostrada para uma plateia. O que está em jogo é uma nova relação de consumo com a dança, muito oportuna e instigante de ser questionada.

O único senão está na obrigatoriedade de escolher somente 4 dentre os 21, para terem a continuidade de sua pesquisa financiada pelo Itaú Cultural. Seria conveniente que essa exigência institucional fosse revista, na medida em que, em nome de ter produto para mostrar (sendo produto algo reduzido a um modelo convencional de espetáculo), estar sutilmente transformando o Rumos Dança em um concurso de processos de pesquisa, que tende a reduzir a importância do que está sendo proposto.

Há ainda um outro fato a ser destacado. O Rumos Dança convidou três trabalhos que já havia apresentado em 2001, 2003 e 2006 para abrir a sua edição 2010. E, mais uma vez, mostrou que está em sintonia fina com um outro assunto que, mais recentemente, vem surgindo na dança, e que diz respeito à reflexão a respeito das reencenações ? uma tendência que vem se fortalecendo internacionalmente. Reencenar é reapresentar, reler o que foi apresentado ou recriar? O que distingue uma coisa da outra? Qual o papel de cada uma dessas escolhas? Ou seja, com a riqueza do que reuniu, cumpriu bem o seu papel, pois deixou claro não nos faltam motivações para pensar sobre os rumos da dança no Brasil.

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