Novos desenhos traduzem revolução moral

A nova geração de desenhos animados da TV, a que abriga A Vaca e o Frango, O Laboratório de Dexter, Johnny Bravo, South Park, Futurama e As Meninas Superpoderosas ilustra uma evolução na consciência, nos costumes, na moral e na sensibilidade da juventude. O argumento cíclico de Tom & Jerry (que, por sinal, continua bom e atual), que sempre culminava na vitória do rato sobre o gato, e o humor ingênuo, chapliniano daqueles desenhos antigos, como Pernalonga e Patolino, hoje cederam lugar ao nonsense absoluto, à ausência de dualismos, ao realismo estilizado e imprevisível.Há mais cinismo e ironia e também mais realidade presentes nesses desenhos fantásticos. Johnny Bravo é a geração pitbull em cena, um sujeito de músculos superdesenvolvidos e cérebro superatrofiado que vive à sombra de uma mãe (curiosamente, não há pai na história).Dexter é um nerd mal-humorado, de excepcional inteligência técnica, mas sem o que se convencionou chamar de "inteligência emocional". Os pais também praticamente inexistem aqui - a crítica à geração precedente está no fato de que pai e mãe nunca enxergam o que está debaixo de seus narizes, e a trama se desenvolve num mundo paralelo, infantil.Em As Meninas Superpoderosas, a figura paterna é representada por um alienado Professor, um sujeito de raciocínio lento e coração enorme, que abriga tudo sem o menor senso crítico. Lutar contra o crime é, na visão das garotas, a mesma coisa que brincar com suas Barbies.Pai e mãe, em A Vaca e O Frango - o mais bizarro e interessante de todos esses desenhos -, são vistos apenas da cintura para baixo, e sua alienação, aqui, é surrealista. Há um episódio em que o Frango arruma uma namorada, e os pais argumentam que o beijo pode ser perigoso, porque faz com que seus protagonistas peguem piolhos.Beavis e Butt-Head, fãs de AC/DC e Metallica, passam as tardes na frente da TV assistindo a videoclipes e exercendo sua crítica podre do sistema. São mais melancólicos que engraçados, e inspiraram até programa de televisão de enorme sucesso na MTV, no qual o apresentador se dedica a achincalhar falhas de continuidade e lances de mau gosto de clipes.O curioso é que a maioria desses personagens foi criada por desenhistas teenagers ou semi-adolescentes. No Cartoon Network, vez por outra eles aparecem em cena, travando diálogos desencontrados com suas criações. Esses autores vêem sua própria geração com extrema autocrítica, sem a mínima comiseração. Passam por cima de sua atitude alienada com extrema criticidade, e se mostram dessa forma protagonistas não-manipuláveis (ou, pelo menos, conscientes de sua manipulação).Num talk show de televisão, um velho herói aposentado, o Fantasma do Espaço, satiriza o programa de David Letterman e usa como partners de auditório aqueles que no passado eram seus perseguidores. A sátira é inteligente e bem-aceita por crianças de 3 a 40 anos.Ignorantes, narcisistas, despreparados, egocêntricos, engraçadíssimos. Eis os novos heróis do cartum mundial. Du, Dudu e Edu, outro desenho do Cartoon Network, mostra um trio de meninos em façanhas cotidianas patéticas, cuja aventura diária pode consistir tão-somente em conseguir um ovo para fazer uma omelete. São engraçados, mas não só. São também excessivamente humanos e atuais, assustadoramente próximos da nossa realidade.Não há mais um núcleo de conflito, nem uma motivação básica. Mas também, a imaginação agora não consiste apenas, como no tempo do coelho Roger, a de juntar realidade e animação, fortalecendo um e outro. A imaginação agora consiste em tornar cada vez mais tênue essa fronteira, mostrando que nosso mundo chegou perigosamente perto do mundo do faz-de-conta.

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