Guga Melgar/Divulgação
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Novos compositores da MPB se destacam em espetáculos teatrais

Tradição no teatro brasileiro, a parceria com a música se reinventa ao eleger novos compositores da MPB e dar à trilha sonora papel de protagonista

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2012 | 07h00

Já faz algum tempo musicais tornaram-se praticamente sinônimo de produções importadas da Broadway. A tradição brasileira no gênero, porém, vai muito além do modelo norte-americano. Tem passado ilustre - ligado a Chiquinha Gonzaga, Sinhô e Ary Barroso. Mas também não cessa de engendrar novas formas de se manifestar.

A cena atual dá testemunho dessa capacidade de reinvenção do teatro musicado. Mesmo em espetáculos que não poderiam ser classificados como musicais no sentido estrito do termo, a música tem ocupado lugar de protagonismo. Não surge apenas como acessório ou elemento incidental, mas como parte da dramaturgia. E tem angariado compositores da nova geração da MPB.

É o caso de Romulo Fróes. Festejado por álbuns como Cão (2006) e No Chão Sem o Chão (2009), o músico se experimenta agora como autor de trilha. Em Oréstia, montagem da tragédia grega que cumpre temporada no Rio, ele assina as canções e a direção musical ao lado de Cacá Machado. “O que posso dizer da experiência é que me apaixonei de maneira irreversível!”, conta Fróes. “Não vejo a hora de voltar a compor pra teatro e no futuro, quem sabe, pretendo escrever um musical, recuperando uma experiência que já foi muito importante dentro da música brasileira e que foi deixada um pouco de lado.”

Dirigido pela atriz Malu Galli, Oréstia concede às canções um posto de destaque. “Na tragédia, a parte do coro foi escrita para ser cantada. Não existe registro de que música era essa. Mas a métrica desse texto é musical”, diz a encenadora. “Ao ser cantado, o coro instaura um estado de alma, uma atmosfera emocional, no espectador. Por isso não escolhi um autor de trilhas, mas um compositor que tivesse uma obra que dialogasse com a peça do Ésquilo. Romulo faz canções sofisticadas que são, ao mesmo tempo, muito simples.”

 

 

As composições cumprem ainda outras funções no espetáculo. Retiram da encenação qualquer aparência de realismo: característica do século 19 que ainda é marca dominante no teatro. Outro mérito é fazer o enredo avançar. “Desde o início, a Malu nos disse que a música conduziria o espetáculo, determinaria as passagens de tempo, os momentos de virada, as tensões, os conflitos”, observa Fróes. “Ela não queria uma trilha somente de ‘climas’. Era preciso que a música estivesse em cena, alterando a performance dos atores.”

A intenção é semelhante em Jacinta. Com Andrea Beltrão no papel-título, a comédia carioca tem canções e direção musical a cargo do titã Branco Mello, que transformou a música em motor da trama.

Escrita por Newton Moreno, a peça não foi concebida originalmente como um musical: Conta a saga de uma portuguesa, degredada para o Brasil no século 16 por ser a pior atriz de seu país. Ainda antes dos ensaios começarem, porém, o diretor Aderbal Freire-Filho diz ter sentido falta das canções. “A referência é (Bertolt) Brecht, que sempre usou a música para brincar, para quebrar a ilusão”, pontua ele, que em produções anteriores já trabalhou com músicos como Jaques Morelenbaum, Rodrigo Amarante e Egberto Gismonti. Para Jacinta, o diretor escreveu a maior parte das letras musicadas por Branco Mello e optou por manter os músicos permanentemente em cena.

Assim como Freire-Filho, outros encenadores costumam fazer da música presença constante no teatro. Em São Paulo, Gabriel Villela e Elias Andreato são reconhecidos por transformarem a trilha em ponto alto de seus espetáculos. Coincidentemente, ambos encontraram em Daniel Maia um parceiro preferencial. Apenas em 2012, o músico compôs a trilha para 11 espetáculos de teatro e dança: entre eles, And@ante, de Andreato, e O Feio, de Alvise Camozzi, ainda em cartaz na cidade. Também este ano, o compositor esteve na Alemanha para criar a base musical do novo solo do coreógrafo Tadashi Endo: Fukushima, Mon Amour. A obra, que estreou em Hannover, deve chegar ao Brasil em 2013.

Com mais de 40 obras compostas para espetáculos, Maia conta que a proximidade com as artes cênicas é tão grande que transformou a sua maneira de criar. “Hoje, eu me sinto mais desafiado a criar para teatro ou balé do que a compor sozinho”, diz ele. “As restrições, o desafio de contar uma história só torna a criação mais instigante.”

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