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Novos árabes

Finalmente entendemos o comportamento da nossa elite, que sempre levou vida de sheiks do petróleo

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

28 Maio 2017 | 03h00

Sonhemos. O petróleo acaba e o mundo passa a depender, para toda a sua energia, do combustível vegetal. Biodiesel e álcool. Ninguém tem tanto biocombustível para vender, ou terra para produzi-lo, do que o Brasil. Enquanto o Oriente Médio afunda no seu subsolo vazio e a areia cobre suas refinarias e seus palácios, o Brasil se transforma no principal fornecedor do sangue do mundo industrial. Brasil, a Nova Arábia.

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Já temos um começo de produção importante. Já conhecemos a tecnologia. Com os investimentos das sedentas potências industriais, nossa capacidade de transformar vegetal em energia se multiplicará. E mais: ao contrário do combustível fóssil, o biocombustível não acaba. Seremos os árabes do mundo por muito mais tempo. E reproduziremos, aqui, o poder e o fausto do Médio Oriente, com os dólares que nos inundarão. Afinal, se eles construíram uma civilização feita de dólar no deserto, por que não construiremos uma igual aqui, onde tudo cresce tão rápido?

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De certa maneira, estamos nos condicionando para isso há muito tempo. Finalmente entendemos o comportamento da nossa elite, que sempre levou vida de sheiks do petróleo. Não são insensíveis e fúteis, são visionários, foram pioneiros. Estavam treinando para o nosso futuro árabe. Construiu-se aqui a sociedade mais desigual do mundo como uma imitação informal da desigualdade institucionalizada do Oriente, onde o contraste entre a massa miserável e o potentado é tradição, não má-formação. 

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Estávamos sendo meio orientais, inconscientemente nos preparando para tomar o lugar deles. Até nossa corrupção, nos seus exageros, tem um pouco dessa premonição de um dia sermos emires do biocombustível, pois no Brasil o dinheiro nascerá na terra.

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Com a China precisando de cada vez mais combustível e os americanos cada vez mais incapazes de largar o vício da gasolina barata, o petróleo não dura até o fim do século. Então será a nossa vez. Temos a matéria-prima para substituir o petróleo, temos a terra, temos a técnica, temos os sheiks e temos a atitude. Estamos prontos. 

Postergação. Curioso como, além da cana, as origens mais modernas de energia sejam o sol e o vento, duas das coisas mais antigas do mundo. E experimenta-se com a energia das marés, outra força que existe no planeta desde a sua formação. É como se a extração do combustível fóssil até sua extinção fosse apenas uma postergação, suja e difícil, até que a humanidade desenvolvesse uma maneira de aproveitar o sol, o vento e os mares como fontes de energia fáceis e limpas. Estaríamos vivendo a pré-história de um mundo finalmente livre do lodo malcheiroso, pelo qual tantos morreram.

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