Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Novos acordes para Orfeu

Remontagem de musical de 1956 tem canções de Tom e Vinicius posteriores à peça

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2010 | 00h00

Chega de Saudade, A Felicidade, Água de Beber e O Morro Não Tem Vez foram compostas por Tom Jobim e Vinicius de Moraes entre 1958 e 1963 - bem depois de iniciada a irmandade que renderia as mais belas canções à música brasileira. São músicas, portanto, que não estavam no primeiro projeto em parceria do músico e do poeta, o espetáculo Orfeu da Conceição, de 1956. Mas entraram na nova montagem, rebatizada apenas de Orfeu, que estreia na quinta-feira, no Rio.

O diretor-geral do musical, Aderbal Freire-Filho, e os diretores musicais, o violoncelista Jaques Morelenbaum e o violonista Jaime Alem, tiveram a anuência das famílias Jobim e Moraes para acrescentar esses clássicos à trilha original, de sete temas, que embala as cenas de amor e dor do casal Orfeu e Eurídice e de seus amigos e inimigos num morro carioca.

O músico Paulo Jobim, primogênito de Tom, inclusive, dividiu o trabalho com Morelenbaum até um mês atrás, quando acabou substituído por Alem (teve de atender a outros compromissos profissionais).

Houve um consenso de que "o grande clássico dos musicais brasileiros, o mais importante", nas palavra de Aderbal - e também o público - só ganharia ao se acrescentarem outras joias do repertório dos dois: Mulher, Sempre Mulher, Um Nome de Mulher, Eu e o Meu Amor, Lamento no Morro e aquele que se tornaria um dos hinos da dupla, Se Todos Fossem Iguais a Você. Em 1h30, são 40 inserções musicais.

"Não há registro falado nem em vídeo da montagem original, mas imaginamos que num espetáculo de no mínimo duas horas haveria outras músicas, que se perderam", conta Morelenbaum. "Resgatamos o Tema de Eurídice, música instrumental que Tom compôs para o espetáculo, mas nunca recebeu letra, e o Tema da Dama Negra, uma peça pequena que nunca foi gravada."

Morelenbaum tocou na Banda Nova, com Tom (1927- 1994), por dez anos. Eles começaram a trabalhar juntos numa época em que o maestro, desgostoso, se recusava a fazer shows, ainda abalado com a morte de Vinicius (1913- 1980). As novas companhias o reanimaram. E Tom virou referência eterna em sua carreira de compositor e arranjador.

Cuidado. O zelo com que suas músicas estão sendo executadas, da forma como ele as concebeu há 54 anos, é uma prova: "Tenho essa vontade de preservar o legado do maestro. Ele é tão reproduzido e gravado no mundo inteiro, mas muitas vezes não olham o original, fazem de memória. O próprio João Gilberto faz isso."

Para Alem, que é maestro de Maria Bethânia há 25 anos mas não chegou a conhecer bem Tom Jobim, o momento é de glória. "Eu tocava de orelhada, e agora aprendi coisas muito interessantes a partir das partituras originais do Jobim. Eu sempre fui alucinado por ele, e sinto uma grande frustração por não ter convivido com ele", diz. "O que acho interessante do espetáculo é a sensação de que toda a obra deles é o Orfeu." Os dois diretores conversaram com o Estado nos bastidores dos ensaios, semana passada. Entre uma pergunta e outra, mulatas de saltos altíssimos e roupas coloridas, personagens da favela onde vive Orfeu da Conceição, passavam de uma lado para o outro.

Se a montagem de 56, que entrou em cartaz também no mês de setembro, tinha o enorme palco (e o fosso) do Teatro Municipal do Rio, e foi embalada por uma orquestra - um dos instrumentistas, aliás, era Henrique Morelenbaum, pai de Jaques -, agora a história é outra: a estreia será no Canecão e, no próximo mês, a peça segue por São Paulo (HSBC Brasil, de 23 a 26 de setembro), Brasília, Goiânia, Porto Alegre e Curitiba.

A solução foi reduzir a banda ao violoncelo de Morelenbaum, o violão de Alem, e mais João Carlos Coutinho (teclado), Zero Telles (percussão), Rômulo Gomes (baixo), Marcelo Bernardes (sopro) e Ronaldo Silva (bateria).

Adaptação. Em 1996, Haroldo Costa, o primeiro Orfeu, remontou e dirigiu a peça, em comemoração aos seus 40 anos. A trama, que fora replicada no premiado Orfeu Negro, de Marcel Camus, em 1959, chegaria ao cinema brasileiro só em 1999, dirigida por Cacá Diegues.

Na versão de Aderbal, Vinicius está no palco, na figura do Poeta (Wladimir Pinheiro) - assim como amigos seus da vida real. A cenografia, que no original ficou a cargo de um Oscar Niemeyer pré-Brasília, é, agora, de Marcos Flaksman. A coreografia é de Carlinhos de Jesus.

É uma oportunidade oferecida a novas gerações, inclusive a dos atores, com idades em torno de 20 e 30 anos, de desfrutar um repertório que não perde o frescor, e de acompanhar uma incrível história de amor.

O REPERTÓRIO

Água de Beber

A Felicidade

Este Seu Olhar

O Que Tinha de Ser

Serenata de Adeus

Frevo de Orfeu

O Morro Não Tem Vez Chovendo na Roseira

Samba do Avião

O Nosso Amor

Um Nome de Mulher

Lamento no Morro

Eu e o Meu Amor

Mulher, Sempre Mulher

Se Todos Fossem Iguais a Você

Chega de Saudade

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